Reportagens

O Oscar – e a Academia – estão abrindo as portas para as mulheres? Como a mudança gradativa em valorizar a produção cinematográfica feminina vem acontecendo

22 de fevereiro de 2018

Por Carol Oréfice e Gabrielli Silva

O Oscar surgiu em 1927, criado pela Academia das Artes e Ciências Cinematográficas. Com o intuito de promover os filmes e seus realizadores, sua primeira cerimônia ocorreu em 16 de maio de 1929. Hoje, a estatueta dourada é o prêmio mais cobiçado pelos cineastas. Em contrapartida, ainda sofre pela falta de premiações de mulheres em categorias que homens também concorrem.

Nestes 91 anos, apenas Kathryn Ann Bigelow ganhou um Oscar de melhor direção, pelo filme Guerra ao Terror em 2010. O ambiente do cinema ainda é predominantemente masculino, o que resulta em roteiros e personagens criados a partir dessa visão. “Ter diretoras, escritoras e produtoras mulheres é fundamental porque torna as personagens femininas melhores, mais realistas, e afeta também a maneira como a sociedade nos enxerga”, enfatiza a diretora e produtora Amanda Sayeg.

A problemática ganha maior notoriedade levando em consideração a quantidade de indicações de mulheres em categorias como direção e roteiro. Em 2018, a diretora e roteirista Greta Gerwig tornou-se a quarta cineasta candidata ao prêmio de direção desde 1927. A indicação ocorreu pelo filme Lady Bird — A hora de voar, que concorre em mais quatro categorias.

Lady Bird também concorre as categorias de: melhor roteiro original, melhor atriz coadjuvante, melhor atriz e melhor filme. (Imagem: Divulgação)

Além disso, pela primeira vez uma mulher foi indicada ao Oscar na categoria de fotografia. A diretora de fotografia de Mudbound: Lágrimas sobre o Mississippi, Rachel Morrison, conquistou esse feito. Ela concorre com os filmes fotografados por homens: Blade Runner 2049, O destino de uma nação, Dunkirk e A forma da água.

Na categoria de roteiro adaptado também ocorreu algo inédito. Pela primeira vez uma mulher negra foi indicada ao prêmio. A cineasta e roteirista estadunidense Dee Rees concorre ao prêmio pelo filme Mudbound, em conjunto com Virgil Williams. Os filmes Me chame pelo seu nome, Artista do desastre, A Grande Jogada e Logan também foram indicados.

Ocorreu a primeira dupla indicação nas categorias de coadjuvante e canção. O feito foi graças à uma mulher, Mary J. Blige, pelo filme Mudbound. Além dela, a cineasta francesa Agnès Varda também fez história no Oscar. Aos 89 anos, ela se tornou a pessoa mais velha indicada pela Academia por seu documentário Visages Villages.

A questão é que, embora mais indicações e marcos na história do Oscar tenham ocorrido, a falta de representatividade feminina ainda existe. Para Amanda Sayeg, “o cenário nunca foi tão positivo para nós mulheres, mas o que estamos vivenciando hoje é apenas o começo da revolução. Ainda existe uma diferença muito grande entre homens e mulheres na indústria. De acordo com as estatísticas, em 2017 as mulheres representaram 52% das pessoas que foram ao cinema, mas o número de mulheres por trás das câmeras é bem diferente”.

A importância da visibilidade feminina no cinema

O papel da sétima arte ao influenciar na construção do nosso imaginário já seria o suficiente para explicar a necessidade de representar mais as mulheres. O ponto é que o cinema não exerce somente essa função em nossas vidas. A cultura como um todo recria rótulos, reafirma comportamentos, dita costumes e implanta ideias.

Nesse sentido, quando uma criança mulher – ou qualquer pessoa – consome filmes que reforçam um papel machista, ela crescerá com uma visão de mundo deturpada. É o que ocorre também com a falta de representatividade da criança negra, por exemplo, que é representada em suma a partir de papéis secundários ou considerados de menor importância.

A importância do cinema não acaba aí. No combate contra a cultura do estupro, a forma como essa arte representa a mulher pode acabar reforçando para o público a tal ideia de que a mulher é um objeto de desejo e satisfação do homem, sem qualquer papel ativo. A cultura de massa é aliada para mostrar a diversidade das mulheres e das funções ocupadas na sociedade por elas.

Casos de assédio e a união entre as mulheres

Enquanto homens são questionados sobre sua carreira, as mulheres respondem perguntas sobre o que estão vestindo. (Imagem: Divulgação)

O problema do machismo nesse meio é ainda maior quando mencionamos os casos de assédio que ocorrem nesse meio. Nos últimos meses surgiram inúmeras denúncias contra atores, diretores e produtores de Hollywood, mas, como ressalta Amanda Sayeg, essas denúncias não refletem um problema atual. “Muito pelo contrário, o problema sempre existiu, mas o apoio que existe hoje entre as mulheres criou um espaço mais seguro e trouxe a esperança de que quanto mais falarmos sobre o assunto maior a chance da situação mudar”.

Exemplos de como a união entre as mulheres vêm tornando-as mais fortes são os movimentos que estão acontecendo em Hollywood. A campanha #AskHerMore (“pergunte mais a ela”) ocorreu durante o Oscar de 2015 e foi uma iniciativa para estimular os repórteres a perguntarem as atrizes questões além de seus vestido e penteados, como suas carreiras e seus papéis nos filmes.

E no Globo de Ouro deste ano, as atrizes usaram vestidos pretos, em conjunto da campanha “Me Too”, para denunciar os casos de assédio em Hollywood. O movimento ocorreu logo após as dezenas de acusações de estupro contra o produtor Harvey Weinstein.

E qual o papel do Oscar nisso tudo?

Um estudo produzido pela Dra. Martha M. Lauzen, do Centro de Estudos da Mulher em Filmes e Televisão, traz dados alarmantes sobre a influência do gênero para a conquista do papel de protagonista. De acordo com esse estudo, quando um filme tem mulheres roteiristas ou diretoras, as chances de ter uma protagonista feminina são 50% maiores; já em filmes com exclusivamente homens no papel de roteiristas e diretores, somente 13% dos papéis de protagonistas são para mulheres.

A escolha dos concorrentes ao Oscar ocorre a partir da grande academia de profissionais e críticos de cinema, cujas opiniões são fundadas em conhecimento e vivência, determinando, ao final, os ganhadores. A problemática existente gira em torno da Academia ser formada majoritariamente por homens brancos. De acordo com dados de 2016, a porcentagem de mulheres na Academia é de 27%, e a de não brancos 11%.

A partir disso, o questionamento surge: a Academia não deveria estimular a igualdade de gênero no mercado e nas produções? Considerando a sua importância em legitimar e potencializar a indústria cinematográfica, a Academia deve repensar estratégias de forma a abranger as mulheres e os não brancos nas premiações. Afinal, atualmente ela ainda fomenta essa cultura machista e racista dentro da sétima arte.

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