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A ditadura da beleza e sua construção histórica na sociedade Desde crianças até a vida adulta, como os padrões de beleza marcam as fases da vida

2 de abril de 2018

Por Caroline Oréfice e Hanna Queiroz 

“Eu comecei a perceber as pressões da sociedade com 5 anos, quando todas as princesas da Disney e as protagonistas de filmes e desenhos tinham um padrão físico que eu não”, conta Marília Nabuco, de 21 anos. Sua pele parda e seu cabelo escuro não combinam com o que as crianças crescem assistindo na TV. “Na infância o que mais me assombrava era saber que eu nunca poderia ser loira por ter a pele parda”. Cabelos loiros, lisos, magreza, pele branca, curvas em formas, peitos simétricos, bunda empinada. A Ditadura da Beleza é conhecida por ser um conjunto de atributos físicos que são bem aceitos pela sociedade.

Essas características subjetivas variam ao longo dos anos e, na maior parte das vezes, causam consequências graves como distúrbios psicológicos, transtornos alimentares e um consumo exagerado na intenção de alcançar o modelo utópico imposto na sociedade.

A questão torna-se mais preocupante ao entendermos que essa influência começa nos primeiros anos de vida de meninos e meninas. “Com uns 8 anos, eu já queria pintar o meu cabelo, usar maquiagem sempre, passar batom vermelho, usar salto.”, afirma Luísa Volpe, de 20 anos.

A interferência na vida das crianças é tanta que muitas vezes acaba gerando marcas que resultam em inseguranças e complexos. A estudante de Jornalismo, Letícia Pinho, de 19 anos conta “eu sempre tive mais pelos no corpo que a maioria das meninas. Eu ouvia muitas piadinhas e apelidos, tipo “macaca”, pelas costas. Isso deve ter começado a me afetar de verdade aos 9/10 anos, quando eu entrei na puberdade.”

Mas esse padrão físico do bonito realmente existe?

O padrão de beleza é construído pela sociedade ao longo dos anos, o que hoje é considerado bonito, não era em um passado recente. Por anos a fio, o corpo e a ‘beleza’ eram colocados a serviço de interesses sociais, militares ou religiosos. Dessa forma, fica difícil não questionar se realmente existe um padrão de beleza ou simplesmente é uma construção social de acordo com os propósitos de cada época.

Na pré-história, Vênus de Willendor ou Vênus paleolítica era o sinônimo de beleza existente. A escultura de 11 centímetros representa uma mulher obesa símbolo da fertilidade e da existência de bons alimentos.

Foi na época de 1200 a. C. que as primeiras academias surgiram. Os gregos frequentavam os gymnasiums, complexos esportivos, mantendo a habilidade corporal e valorizando a saúde. O padrão que atingia os homens da época era o de serem altos, musculosos, com cabelos encaracolados na altura dos ombros e narizes afilados. Já as mulheres precisavam ter curvas perfeitas, seios pequenos, cabelos longos e pele clara.

No século I surgiu a tão conhecida frase “ mens sana in corpore sano” – deve-se orar por uma mente sã num corpo são; que, atualmente é conhecida como mente sã, corpo são. O padrão de beleza dessa época não diferenciava-se muito da época anterior. Como os homens estavam envolvidos com os treinos militares, era comum a existência de soldados fortes e atléticos.

A Idade Média passou por duas fases diferentes. Enquanto a prática de cuidados com o corpo era vista como pecado, o esperado de mulheres da época era ter feições angelicais, lábios pequenos e cabelos loiros. Para os homens da época, o comum era associar beleza e poder, baseando-se muito no rei da época para atingir o padrão.

Na época de Leonardo da Vinci, com a criação do Homem Vitruviano (1490). os padrões de beleza relacionados às proporções matemáticas do corpo humano surgiram. A partir disso, a simetria passou a ser considerada bela.

Em contrapartida com os padrões anteriores, na época renascentista o padrão de beleza pautava-se em mulheres e homens com longos cabelos, formas roliças e voluptuosas, quadris largos, celulites e até uma barriga aparente, representando fartura e nobreza.

Já na época do Barroco e do maneirismo, a questão estética não era tão levada em consideração como padrão, mas sim a forma de mover-se ou mesmo olhar deveria ser revestido de graça e beleza. Ocorre uma supervalorização dos modos refinados, além do destaque para roupas e adornos.

No Romantismo, a estética era ligada à melancolia e à doença. Enquanto a aparência das mulheres deveria ser lânguida e pálida, agindo com comportamento recatado. Os homens tinham o padrão ligado à poesia, à boemia e à solidão.

Nos anos 40 e 50, as “formas volumosas” de Marilyn Monroe eram consideradas o ideal. Todas as mulheres que não tinham curvas ou eram muito magras, sonhavam em ter o corpo do momento.

Na década de 90, Kate Moss ressignificou os padrões de beleza da sociedade com sua altura e seu porte físico esbelto e magro. É o padrão que até hoje conhecemos como bonito e de corpo “de modelo”.

Nos dias atuais, uma mulher magra com a musculatura aparente mostra uma pessoa que dispõe de alimentação balanceada devido à nutricionista, acompanhamento médico, musculação e atividades físicas, tratamentos estéticos e outros privilégios restritos a poucos.

Diante dessa breve história do padrão de beleza imposto ao longo dos tempos, é possível entender que a estética é determinada a partir dos interesses variáveis de cada época. Valendo-se, para isso, desde a relevância político-econômica, como a questão social e estética pré-determinada por determinadas camadas.

O que fazemos para nos encaixar no padrão?

Foto: Carol Oréfice

Em pesquisa realizada pela marca de cosméticos Dove foi possível obter dados de que apenas 4% das 6.400 mulheres entrevistadas acreditam serem seguras de si e autoconfiantes o bastante para se intitularem como belas. Embora a porcentagem entre as brasileiras seja de 14%, a pesquisa mostra a problemática existente ao se firmar um padrão de beleza. Além disso, existe também a pressão para serem bonitas –  59% das entrevistadas sentem-se intimidadas para adequarem-se ao considerado esteticamente belo.

A obsessão gerada por toda essa opressão acaba levando as pessoas a cometerem loucuras para enquadrarem-se na indústria do belo propagada diariamente pela mídia nas revistas, rádio, jornais, televisão e internet. Desde deixarem comer até desenvolverem transtornos alimentares como a bulimia e a anorexia, tudo para serem aceitas pela sociedade. “Uma vez eu encontrei um blog na internet que incentivava a anorexia e bulimia, meninas da minha altura colocavam como meta algo entre 40 e 45 quilos”, comenta Letícia Pinho, 19.

A pressão não era só para emagrecer. “Comecei a me depilar frequentemente e alisei o cabelo durante muito tempo, acho que uns 6 ou 7 anos”, complementa a jovem de 19 anos. Marília conta que ela usava acessórios e roupas rosas e da moda que nem sempre a deixavam confortável, mas a faziam se sentir mais aceita pela sociedade por estar dentro de um padrão estético. Luisa, aos 9 anos, deixava de comer bolo de chocolate na escola para não engordar. “Eu colocava na minha cabeça que eu precisava fazer dieta e emagrecer, até porque isso, pra mim, era uma coisa muito adulta, sabe? E eu queria ser adulta o mais rápido possível”, comenta a estudante.    

Essa pressão começa logo cedo, a noção de ditadura da beleza atinge os mais novos de forma tão intensa quanto os adultos. “Muitas pessoas querem ficar magras ou ter cabelo liso porque acham que é isso que os outros gostam”, elucida Fernanda Demétrio, 11 anos. Nem a garota pode escapar das amarras da sociedade com relação aos moldes, “quando eu tinha 7 anos estava em um aniversário e falaram que eu era pesada. Eu fiquei chateada. Agora não ligo mais”.

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