disturbios alimentares
Reportagens

Transtornos alimentares: quando a comida se torna uma obsessão

24 de abril de 2018

Por Gabi Gomes e Giovana Valadares

Comer pra viver. Viver pra comer. É só o que passava pela cabeça de Amanda Moreira, estudante de Relações Públicas, dos seus 12 a 16 anos. Diagnosticada com transtorno de compulsão alimentar, ela comia simplesmente tudo o que via pela frente, e segundo ela “o transtorno começou logo depois que meu pai faleceu, quando tinha 12 anos. Eu comia pra me saciar, pra encontrar uma paz, uma satisfação, um prazer dentro de mim, chegando até a ser uma felicidade que eu não encontrava em outros lugares ou de outras maneiras”.

Hoje com 20 anos, ela diz que ainda passa por algumas recaídas, mas que são mais facilmente controlados. Ela se odiava naquela época: “Eu engordei 30kg e quando me dei conta, não me reconhecia mais. E me odiava muito, chorava quase todos os dias quando me olhava no espelho, porque aquilo não era eu. Aquele ser humano não representava quem eu era, eu me sentia muito presa dentro de um corpo que fazia coisas que muitas das vezes eu não controlava, e só me tocava depois, quando me arrependia e chorava”.

Vale lembrar que a maioria dos casos de transtornos alimentares — perturbações no comportamento alimentar, considerados doenças psiquiátricas — acometem, principalmente, adolescentes e mulheres jovens. Podem ter a ver com diversos fatores, desde familiares, biológicos, sócio-culturais ou psicológicos.

Uma visão errada de si mesmo

Se olhar no espelho e não gostar do que vê é algo que incomoda a grande parte das pessoas, contudo, quando o que se reflete começa a ser distorcido e os padrões de beleza da sociedade se tornam uma constante na vida da pessoa, pode-se levar a graves consequências.

Amanda conta que grande parte do sofrimento foi por ela não estar com o peso ou com o corpo padrão que via todo mundo ter, modelos, blogueiras, amigas…menos ela. Mas com o tempo foi percebendo a autodestruição que a compulsão é, e mesmo que ainda seja uma luta diária, passou a se cuidar mais, e perceber que ela também precisava se amar, se cuidar, se dar carinho.

De acordo com a nutricionista Fabíola Machado, “mesmo que não seja uma novidade no mundo, toda essa pressão intensifica hoje o que chamamos de distúrbios alimentares. Os mais conhecidos sendo anorexia e bulimia. Ambas distorcem a imagem e causa frustração com a imagem. Atualmente aparece também a vigorexia, prezando pelo volume muscular e horror à qualquer gordura no corpo. Todos os transtornos sendo estimulados constantemente por informações erradas sobre alimentos e nutrição na mídia e redes sociais”.

É o caso de Talita Romão, que desenvolveu bulimia aos 14 anos, e diz que são incontáveis as vezes que foi parar no UPA — Unidade de Pronto Atendimento —  por estar fraca, já que não comia direito durante o dia, trocava o almoço por água, café ou bala e chegava a vomitar. “Ao contrário do que muitos pensam a maioria das pessoas que têm sintomas de bulimia e anorexia, sabem que tem e a maioria é porque busca isso. Pra tentar recuperar minha autoestima tenho contato com meninas do círculo de mulheres que são mais experientes do que eu e procuro muito canais de meditação porque falam muito sobre o corpo”, relata.

infográfico distúrbios alimentares
Infográfico: Giovana Gomes – Créditos das ilustrações: instagram.com/meandmyed.art

 

Um levantamento realizado pela Secretaria de Estado da Saúde, em 2014, mostra que 77% das jovens em São Paulo apresentam propensão a desenvolver algum tipo de distúrbio alimentar, como anorexia, bulimia e compulsão por comer. Entre as garotas abordadas pela pesquisa, 39% estavam acima do peso. O estudo foi feito por profissionais da Casa do Adolescente, com 150 pacientes de 10 a 24 anos que foram atendidas no ambulatório de Ginecologia do Hospital das Clínicas.

Muitos dos casos de transtorno alimentar são impulsionados pela forma como os padrões de beleza estão sendo tratados pelas mídias sociais: cada vez mais vorazes. Muitas vezes, começa aí a visão distorcida que a pessoas começam a ter de si mesmas.

“Nunca se falou tanto de nutrição e alimentos como nesta era de redes sociais. Também, nunca nos expomos tanto ou fomos tão bombardeados de imagens perfeitas e informações. A partir de agora, é preciso muita maturidade para desviar de cada vez mais padrões sociais criados e impostos na sociedade. Temos que ter opinião sobre tudo, ser jovens, saudáveis, sarados, bonitos e muito, muito iguais”, afirma a nutricionista Fabíola Machado.

Uma caminhada de volta ao topo

O tratamento de qualquer disfunção alimentar é uma caminhada que deve ser feita diariamente. É uma batalha para estar de bem com a mente e com o corpo, como afirma a nutricionista, “ [o tratamento] envolve educação sobre como nos relacionamos com a comida, e como ter um padrão alimentar compatível com nossa realidade e que nos mantenha dispostos para enfrentar o dia-a-dia”.

O envolvimento da família pode-se mostrar algo importante no quadro de melhora do paciente com disfunção alimentar. Além disso, o envolvimento de outros profissionais da saúde como psicólogos e psiquiatras se mostram fundamental para o tratamento.

O tratamento de toda e qualquer disfunção alimentar deve ser feita com respeito, pois “a realidade de pessoas com transtornos alimentares não é brincadeira e deve ser respeitada e tratada com dignidade”, afirma Fabíola.

A discussão e a pesquisa sobre o tratamento das disfunções alimentares devem ser trazidos à tona, para, finalmente, começar a quebrar os tabus que envolvem o tema.

O equilíbrio é a palavra chave para qualquer paciente com transtorno alimentar que passa por tratamento, e como afirma Amanda Sampaio, “sempre vai ser uma luta diária de eu lembrando para mim mesma que não preciso me autodestruir, que posso lidar com meus problemas de uma maneira mais saudável”.

A arte mostra a vida

distúrbios alimentares
Cena do filme “O Mínimo para Viver” , com a atriz Lily Collins

Para quebrar mais ainda os tabus que ainda cercam o tema dos transtornos alimentares, alguns filmes e livros já começam a tratar o assunto de forma séria. É o caso da produção do Netflix, “O Mínimo para Viver”, que discorre sobre a aflição da vida das pessoas com quadros de disfunção.

A nutricionista Fabíola ainda sugere o documentário “Muito Além do Peso”, que trata da obesidade infantil e sobre as mudanças nos padrões alimentares nos últimos anos.

Ainda assim, ela alerta: “também existem muitos documentários sensacionalistas que tentam exaltar condutas inadequadas e deixam as pessoas assustadas com seus alimentos. Esse comportamento humano de usar o medo das pessoas e gerar venda com isso é algo que ainda precisamos muito combater. Não se pode esquecer que esses transtornos podem levar à outras doenças e problemas de saúde, sendo comum até a morte”.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *