Reportagens

Vivendo com ansiedade Como as pressões diárias, o sentimento de culpa e cobranças externas e internas podem fazer uma pessoa desenvolver o transtorno de ansiedade?

16 de maio de 2018

Por Giovana Gomes e Victória Rangel

A famigerada ansiedade é conhecida como O mal do século, mas não é uma novidade apenas da geração do milênio.  Inerente ao ponto de alerta que prepara os seres humanos para inúmeras atividades, ela está próxima ao medo que, segundo o dicionário Priberam, é o estado emocional resultante da consciência de perigo ou de ameaça”. Para nossos ancestrais, que precisavam de atenção em suas atividades diárias como a caça, o medo era um fator essencial. Mas por que somos uma geração ansiosa se, para adquirirmos nosso alimento, não temos que caçá-lo, podendo simplesmente nos dirigir ao mercado? – algo que parece uma atividade fácil, não é mesmo?

Para pessoas com o TAG, Transtorno de Ansiedade Generalizada, entretanto, ir ao mercado pode não ter nada de simples. Um dos sintomas desse transtorno é ter a constante sensação de que algo ruim vai acontecer. Mas não apenas este, mais de 5 sintomas podem dominar o corpo da pessoa ansiosa ao mesmo tempo. A psicóloga Gretta Rodrigues de Souza diz que “existem alguns sintomas físicos que as pessoas relatam muito que é a falta de ar, taquicardia, formigamento, boca seca… tudo isso são sintomas de uma ansiedade generalizada e é um cuidado que a pessoa tem que ter e procurar ajuda”. 

Mas o que podemos considerar como uma ansiedade saudável e uma ansiedade incapacitante?

“Um pouco de ansiedade é até saudável porque faz com que a pessoa se movimente e realize mudanças na vida dela. O que a gente acha, dentro da visão da psicologia, é que acaba sendo um transtorno quando as pessoas não conseguem mais lidar com essa ansiedade“, afirma Gretta. Portanto, quando ela se torna intensa e impede que o indivíduo reaja diante de situações do dia a dia, é o momento de tomar alguma atitude. 

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país com a maior taxa de pessoas com transtornos de ansiedade no mundo. Dados publicados no começo de 2017 apontam que 9,3% dos brasileiros têm algum transtorno de ansiedade. Ainda segundo a OMS, contribuem para isso fatores socioeconômicos, como pobreza e desemprego; e ambientais, como o estilo de vida em grandes cidades.

Gretta ainda acrescenta: “A pessoa tem que procurar ajuda quando ela perceber que está além do normal dela: ‘já não durmo mais, não consigo mais relaxar, o que antes era gostoso já não é mais a mesma coisa, não tenho mais disposição pra fazer as coisas que normalmente eu faço.’ Então quando começar a impedir de fazer coisas como dormir, trabalhar, está na hora de olhar um pouquinho melhor tudo isso”.

gráfico ansiedade
Créditos: SuperInteressante

Angústia e coração acelerado

Aline Campanhã, estudante de jornalismo da Unesp, conta que sempre foi muito ansiosa e perfeccionista, desde mais nova: “Comecei a sofrer desde cedo com esse transtorno, mas ele ainda era “pequeno” ao nosso ver. A ansiedade me fazia comer palavras quando estava lendo algum texto, me desfocava muito fácil, mas para mim, na época, isso não era nada demais, até chegar no terceiro colegial e eu não passar no vestibular”. 

A partir daí, passou a dormir muito mal, ter enjoos e azia, e então começou a tomar um calmante natural. “No meio de tudo isso, eu continuava me cobrando muito, não só para passar no vestibular mas para agradar os outros. Uma das coisas que eu mais detesto, até hoje, é viver em ambientes com desavenças. Isso acelera meu coração de uma tal maneira que parece que vou ter um infarto, então, para evitar toda essa angústia e palpitação eu deixava a minha vontade totalmente de lado, e fazia o que os outros queriam para que eles não brigassem nem se chateassem comigo”, a estudante confessa.

Quando entrou na faculdade, era um mundo diferente. “A angústia do novo deixava minha ansiedade a milhão. Tinha dias que eu ia para a faculdade chorando, pois eu tinha medo de desapontar alguém, não conseguir fazer amizades e ficar sozinha. Continuava tomando o calmantinho natural, e ele continuava dando conta do recado. Até que minha vó veio a falecer e eu piorei. Comecei a ter crises de choro e tremores do nada que eu não fazia ideia da onde vinham. Um aperto na garganta que parecia que eu ia morrer sufocada, e muito medo“. 

Aline conta que isso perdurou por 3 meses, até que decidiu ir à psicóloga. “Ela de cara me indicou para um psiquiatra e eu não fui. Fiquei bem assustada, o que gerou ainda mais ansiedade. As crises ficaram recorrentes…tinha todos os dias da semana, até que eu não aguentei e liguei desesperada para minha mãe pedindo que ela marcasse a médica. Agora, descobri que tenho transtorno de ansiedade e síndrome do pânico. Faço tratamento com remédios e mudei minha psicóloga recentemente, pois não estava vendo resultados na anterior”.

Pressões e cobranças diárias

ansiedade
Créditos: tumblr

Tanto na vida profissional quanto pessoal, é normal que existam cobranças, prazos a se cumprir, compromissos e tomadas de decisões. Mas, se essas preocupações passam a ser muito altas e começam a tirar muita energia e prejudicar a sua relação com você mesmo, ou seja — quando as expectativas dos outros se tornam mais importantes que seu próprio bem estar  mudanças precisam ser feitas.

Camila Berto, estudante de Psicologia da Unesp, diz que sempre tirou notas muito boas na escola, mas nunca foi uma pressão além do normal. “Mas, esse ano eu comecei a trabalhar, e, agora sim, tirar notas boas e ir bem na faculdade tem se tornado uma pressão. Cada vez mais eu percebo como a universidade não é feita pra quem trabalha, e -alguns- professores parecem ignorar isso. Então, atualmente, a faculdade/emprego têm sido alguma das minhas principais pressões”, salienta. 

Ela também lembra das cobranças que envolvem o corpo e a aparência: “Outra questão que me afeta muito é meu peso. Eu já tive transtorno alimentar, e, apesar de já ter feito terapia por isso, ainda hoje parece que toda a minha culpa e a minha ideia de ser boa se materializam na forma como eu enxergo meu corpo. Então, esse é outro foco de pressão diária, pois não tem um dia que eu não me cobre/culpe por ter o corpo que eu tenho”

ansiedade infográfico
Importante lembrar que os sintomas não são os mesmos para todo mundo, e não ocorrem na mesma intensidade.

Não tenho transtorno de ansiedade, mas porque eu acho que acabo canalizando isso pra outras coisas, como a comida, por exemplo. Um hábito que, infelizmente, eu estou adquirindo, por conta da ansiedade, é o de fumar. Nunca foi algo que eu imaginei, mas, em alguns momentos, é a única coisa que consegue me tranquilizar. Nos momentos de muito estresse, eu sinto que preciso abandonar tudo, ignorar as cobranças que estão na minha cabeça e fazer alguma coisa “boba”, tipo assistir alguma série”, comenta Camila.

Aline Campanhã reforça como a questão de precisar agradar as pessoas ao redor é algo muito recorrente: “Acho que, no ansioso, a pressão que nós mesmos colocamos é o que nos derruba né? O querer ser perfeito a toda hora, não desagradar ninguém, muito menos a nós mesmosMe cobro muito para deixar todo mundo bem. Uma das coisas que mais me deixa feliz é ver todos que vivem ao meu redor convivendo muito bem”.

Aline também dá alguns conselhos para quem se identifica com o que ela passa:

E o que a gente pode fazer?

Se trate com carinho: Primeiramente acho que é olhar para dentro sem culpa. Não é por sua culpa ser assim, sabe? Não se veja como um estranho: tem muito mais gente igual a nós do que podemos imaginar, e, se todos dermos as mãos e contarmos das nossas angústias e aflições, com certeza saberemos lidar com isso. Você não é a ansiedade, você é uma pessoa maravilhosa que está com ansiedade. Ela é uma extensão sua e não a sua totalidade, lembre-se sempre disso.

Respeite seu tempo: Quando estiver com crise, se dê esse tempo. Não deixe atropelar as coisas, não passe por cima delas como se elas fossem banais. Respire bem fundo, beba água gelada em goles, tome um banho, caso se sinta segura, deixe o que está te deixando angustiada de lado – sem culpa – e vá fazer algo que goste. Músicas geralmente me ajudam, e pensamentos do tipo “é só uma crise, e ela vai passar” também me ajudam.

Sinta o aqui e o agora: Viver um dia de cada vez é uma tarefa difícil demais para o ansioso, mas tente focar nas coisas que está fazendo no momento. Eu abandonei listas e metas, porque percebi que elas me deixavam mais sufocadas ainda. Não tem problema se as coisas não saírem do jeito que você queria. Não tem problema você faltar de uma aula para cuidar de você. Não tem problema você tirar um cochilo a tarde, ou não passar aspirador todo dia da semana. Não tem problema você escolher fazer o que tem vontade”.

Auto-conhecimento e ajuda psicológica

É importante saber que a busca por melhora é um processo longo e delicado.  “Além de buscar ajuda psicológica, de se conhecer, de se olhar e entrar em contato com essa mudança de atitude e de estilo de vida, a pessoa pode também procurar um psiquiatra. Os dois juntos trabalham muito bem. Só a medicação às vezes não adianta porque é preciso entender como ela funciona. E, para isso, só mesmo o trabalho de psicologia, com psicoterapia. A medicação vai ajudar a aliviar os sintomas, mas não vai trazer o autoconhecimento. A gente sempre fala que se conhecer é um grande aliado no combate à ansiedade. E aí você entra num processo de se olhar dentro desse desenvolvimento emocional, pessoal, e vai tendo uma vida mais saudável, buscando mais equilíbrio”, finaliza a psicóloga Gretta.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *