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Os Mutantes: a confusão e a irreverência de Sérgio Dias Os Mutantes mudaram ou João Rock 2018

12 de junho de 2018

Por Sinuhe LP

No sábado 09 de junho, em mais uma edição do festival João Rock em Ribeirão Preto, o Palco Brasil começou no final da tarde com uma das bandas mais irreverentes de toda a história da música brasileira: Os Mutantes. Ou será que poderíamos chamá-la apenas de O Mutante? Frente ao palco, como o mestre de cerimônias, Sérgio Dias, o representante mais ativo dos irmãos Baptista (e o que restou da banda original), comandou a sua trupe na altura dos seus 60 e poucos anos não muito bem conservados.

Atônito, tomado por emoção tamanha, o que Sérgio não soube dar à voz durante o show, foi compensado em sua guitarra veloz e pontual. “Boa tarde, Sorocaba!”, iniciou Sérgio, confundindo-se em relação ao local do festival. Com um som instrumental tinindo e trincando, Os Mutantes hoje é uma banda com grandes músicos estrangeiros. O único-mutante canta ao lado de duas integrantes com quem divide os vocais, além do tecladista (um pouco mais afinado). Nada muito sonoramente afetuoso para quem ouviu Rita nos discos: ou melhor, como diria P. Leminski, “tudo que ouvi me irrita / quando não ouço Rita Lee”.

Mas a intenção é ótima. E histórica. Sérgio Dias ainda é lenda viva de um movimento que há quase meio século virava de costas para a plateia do teatro TUSCA durante “É Proibido Proibir”, de Caetano Veloso. E com certeza muitas pessoas, inclusive adultos passando dos 40 anos, foram ao João Rock para presenciar esse movimento fluido, desengonçado e ainda irreverente de Sérgio Dias.

A banda consegue fazer jus ao nome, literalmente. A banda não é mais o que foi com Rita e Arnaldo, não é mais o que foi com Zélia Duncan, e amanhã não será mais o mesmo que hoje. A performance muda constantemente. Mudam inclusive de idioma: há a sensação de assistir à apresentação de uma banda gringa, com direito a expressões em inglês convidando o público, e, para dividir opiniões de gregos e troianos — várias letras das canções são traduzidas para o inglês, destoando das originais.

Sobram como marcas de uma autoralidade que nasceu dos três: o figurino diferentão, os grunhidos, o som psicodélico de distorções e instrumentos inusitados, e claro, as canções clássicas. No show, executaram com maestria “Tecnicolor”, “Jardim Elétrico”, “El Justiceiro” (com direito a Sérgio Dias xingando o Temer em portunhol), “Top Top”, “A Minha Menina”, e levaram o público à loucura com “Ando Meio Desligado”, “Balada do Louco” e “Panis et Circences”.

Não se ouvia muito bem o que era cantado, mas havia a vantagem dos clássicos: toda a plateia sabia o que eles queriam cantar. Por fim, passados quase 50 minutos, nos acréscimos, Os Mutantes fecharam o show com “Baby”, dedicando a canção ao seu autor que subiria no mesmo palco dali algumas horas — Caetano Veloso. O baiano de Santo Amaro da Purificação já premeditava em “Sampa” quais seriam os próximos anos da banda de Sérgio: “Nada do que ___ era antes quando ___ somos Mutantes”.

Ele muda a banda, o show e o som sem esmeros, são constantes mutações. Ao finalizar a apresentação com a canção “Baby”, Os Novos Mutantes apontam para a direção do passado, um flashback pedagógico, como se Sérgio Dias fosse um guru imperativo que diante de uma nova geração de ouvintes do João Rock, revela a eles o elixir da boa música brasileira do final dos anos 60. Uma preciosidade que não vem de graça ou à toa, é preciso desvendá-la, descobri-la nos dias de hoje, como uma tarefa homeopática, em etapas: “Você / Precisa saber da piscina / Da margarina / Da Carolina”.

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