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Polarização e ‘fake news’: o caminho das eleições de 2018 Entenda a situação política do Brasil e quais as possíveis consequências da conjuntura atual do país

1 de junho de 2018

Por Hanna Queiroz e Caroline Oréfice 

No contexto da política, polarização está ligada as divergências de atitudes políticas entre extremos ideológicos. Essa diferença pode ser vista de forma evidente ou de maneira oculta em grupos específicos. Para tornar esse conceito mais explícito, a relação propagada de direita e esquerda, o que cria esteriótipos ligados aos dois pontos políticos, serve como exemplo.

Segundo o historiador Fernando Horta, toda a polarização política é um processo não natural de seleção e hierarquização de ideias. Isso significa que a polarização não segue o princípio de ação individual no campo político, que é considerado natural pois obedece a lei da “distribuição normal” na estatística. Essa distribuição normal afirma que a escolha de ideais políticos entre as pessoas é aleatória e independente, o que tende a concentrar mais indivíduos nos centros ideológicos do que nos polos.

As discussões existentes dentro da redoma da polarização em ciência política, colocam-na no contexto dos partidos políticos e sistemas democráticos de governo. Em países como os Estados Unidos, em que o sistema é bipartidário, a polarização causa a perda de poder e influência de vozes moderadas.

Se, de acordo com a estatística, as pessoas deveriam se afastar dos polos políticos, por que ocorre o contrário?

O psicanalista Christian Dunker, autor do livro Mal-estar, sofrimento e sintoma – A psicopatologia do Brasil entre muros, explica que a polarização é reflexo de uma vida hiper individualizada que tem, por consequência, o encolhimento do espaço público. “Na vida segregada, desaprende-se a enxergar o outro político”, diz ele.

No Brasil, o ideal de individualização e realização pessoal tomou forma na década de 70, quando a imagem de sucesso e riqueza começou a adentrar nas ambições das famílias de classe média. Porém, desde o período entre guerras, existem os ideais capitalistas e socialistas, e discussões em volta deles. Entretanto, não havia a forte intolerância com o diferente que existe hoje, resumindo a disputa entre direita e esquerda.

De acordo com o sociólogo Emerson Palmieri, uma discussão pode viralizar nas redes sociais à partir de um falso problema. “Um exemplo clássico é uma publicação perguntando se as pessoas preferem o capitalismo ou o socialismo. Esse tipo de publicação cria um senso comum negativo, ou seja, um saber generalizado que não é sustentado pela experiência, e sim por raciocínios construídos aleatoriamente“.

Esses raciocínios construídos de forma aleatória impedem que exista um desenvolvimento maior sobre a questão. “A influência da polarização em debates políticos é negativa porque, quando se tem certa noção de quais ideias ‘pertencem’ à esquerda ou à direita, declarar uma posição ou apoio a alguma coisa levanta uma barreira nas pessoas que as impedem de continuar o diálogo“, explica.

Além disso, Palmieri aponta outra questão importante: quem classifica o que é de esquerda e o que é de direita? Ele explica que esse processo é, na maioria das vezes, tendencioso. “Como eu, de esquerda, tenho certeza de que você, de direita, representa apenas aquilo de negativo, não vou perder tempo conversando, apenas te atacando para te destruir”.

A divisão entre manifestantes pró e contra o impeachment de Dilma Roussef em 2016 foi o ápice da polarização atual que trouxe, também, intolerância e extremismo. Um exemplo disso foi o muro de aço que serviu para dividir a Esplanada dos Ministérios em Brasília em duas, entre os grupos favoráveis e contrários ao impeachment de Dilma Rousseff, sendo um dos maiores símbolos da polarização política extrapolada para as ruas.

O muro de aço de 80 metros de extensão faz parte de mais uma representação demonstrando a invisibilização do pensamento divergente, o que é uma viagem sem volta para que transforme o diálogo entre pessoas com ideais divergentes como algo impossível. “Esse bloqueio fundamental é uma experiência de desaprendizagem política”, afirma Dunker.

É a partir disso que o diálogo entre quem não quer ouvir e as generalizações extremas apresentadas na dualidade “coxinha” contra “petralha” prosperam. “Você é identificado como coxinha ou petralha e, partir disso, é objeto de monólogo. Você não consegue mais responder de outra posição. É um sintoma, como dizemos na psicanálise, dessa estratégia de vida baseada no muro”.

As mídias digitais: plataforma de debate político ou disseminadora de ‘Fake News‘?

A questão fica ainda mais explícita quando colocada nas plataformas digitais. As redes sociais como Facebook, Twitter e WhatsApp ganham cada vez mais adeptos na busca por informação relacionada à política. De acordo com pesquisa do Pew Research Center, as discussões políticas nas redes sociais causam emoções que resultam em parcialidades, e, na prática, em quase nenhum entendimento, porque o debate no ambiente virtual gera um confronto irracional e à manutenção irredutível de opiniões – o que é a negação da política.

O maior problema das redes sociais relaciona-se com o fato de seus usuários ficarem dentro de bolhas  em que só se concentram pessoas com pensamento e gostos similares. O resultado disso são inúmeras pessoas que concordam, não existindo contraponto de argumentos e opiniões, dando a impressão de que esses pensamentos são senso comum de toda a população. A preocupação aumenta com a questão de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ter possibilitado o impulsionamento de campanhas políticas a partir de postagem em redes sociais para propagarem suas ideias.

Além da bolha de pensamentos, existe também a tecnologia que pode atrapalhar. Os bots são softwares automatizados para disseminar conteúdo em grande quantidade nas redes sociais. Esse conteúdo pode inclusive ser partidário, com o intuito de gerar discussão política sobre determinados assuntos. Segundo estudos desenvolvidos pela FGV, no Twitter cerca de 20% de todas as mensagens de apoio a políticos podem ser interações falsas feitas por bots.

As informações obtidas pela Internet causam impacto na vida da sociedade, inclusive na política. De acordo com pesquisa do Itaú Asset Management, 57% do eleitorado brasileiro tem acesso à Internet. Mirella Sampaio, do Itaú, afirma que “os eleitores não sabem onde conferir se as notícias são verdadeiras ou falsas”.

Um estudo do  Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai) da Universidade de São Paulo (USP) traz dados alarmantes. Apenas em redes sociais, 12 milhões de brasileiros compartilham notícias falsas. Esses dados comprovam outro estudo, dessa vez realizado por cientistas do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e publicado na revista Science, o qual mostra que as notícias falsas se espalham 70% mais rápido que as verdadeiras.

Qual o grande problema das ‘Fake News‘ então?

O termo ‘Fake News‘ cresceu absurdamente após a disputa pela presidência americana em 2016 entre Donald Trump e Hillary Clinton. Um dos casos chocante e errôneo muito compartilhado na época foi o de que Hillary Clinton participava de uma rede de pedofilia no porão de uma pizzaria em Washington.

E isso não aconteceu só na América do Norte. Em terras brasileiras, a dimensão que as notícias falsas alcançam virou tema de debate sobre o impacto de possíveis casos nas eleições até no Senado. Pautas como a responsabilização de quem dissemina as falsas notícias e a importância do jornalismo profissional foram debatidas pelos participantes.

O filósofo Pablo Ortellado, que gerencia o Monitor, explica que uma matéria pode ser caracterizada como ‘Fake News’ quando ela”aparenta ter sido feita a partir de uma apuração, porém ela é falsa não por erro de apuração, mas de maneira maliciosa”. Para ele, o que vem ocorrendo no Brasil é “uma guerra de informação travestida de jornalismo”. De um lado temos a imprensa considerada alternativa e que busca espaço principalmente nas redes sociais, brigando contra a grande imprensa, existente há anos e que também busca não perder essa batalha.

Como fugir das ‘Fake News‘?

A principal orientação para ajudar a combater ‘Fake News’  é a atenção com as informações recebidas, além de não compartilhar notícias sem antes ter certeza da veracidade. Para que fique mais fácil de tentar fugir dessas notícias falsas, nós do Cinco Estações criamos um infográfico com algumas dicas básicas que ajudam a manter-se longe das ‘Fakes News’.

A primeira dica é para conferir as fontes citadas nas matérias, muitas vezes essas fontes não existem ou se quer foram entrevistas realmente. Além disso, é importante ler a matéria por completo para conseguir enxergar o ponto do autor antes de disseminar o conteúdo lido.

Se você já fez esses dois passos, está em um caminho muito perto de evitar notícias falsas. Mas, por via das dúvidas, anote mais essas três últimas dicas. Sempre busque mais de uma fonte de informação, não acredite em tudo de primeira, muitas vezes o veículo que escreveu a matéria tem um posicionamento político pré-determinado.

Lembre-se sempre de analisar a data de publicação da reportagem em questão. Pode acontecer da matéria ser verdadeira, porém antiga, o que pode já ter mudado na situação atual. Tome cuidado para não compartilhar notícias que não são mais reais nos dias de hoje.

A melhor maneira de perceber se aquele site que está fornecendo informação é confiável acontece a partir de uma navegada pelo site. Dessa forma, você consegue entender a seriedade do site, ver as problemáticas existentes nas publicações e, de quebra, obter mais informações se perceber que o veículo produz matérias verdadeiras.

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