Ilustração menina cabelo curto. Processo amor-próprio.
Cotidiano

A libertação que veio junto de um corte de cabelo Amor-próprio é (re)tomar as rédeas de nossas vidas

23 de julho de 2018

Por Gabrielli Silva

Há mais ou menos um ano eu cortei meu cabelo. Uma decisão que me libertou de um pouco mais de 30 cm de cabelo e um enorme peso de inseguranças, padrões e zona de conforto.

Eu tive cabelo longo praticamente minha vida inteira e eu achava lindo, mas com os anos eu fui me perdendo entre os padrões e já não sabia mais se era o que eu gostava ou se era o que me fizeram acreditar que eu gostava. Anos ouvindo elogios ao meu cabelo e comentário do tipo: “mulher fica mais bonita de cabelo comprido”, me fizeram acreditar que eu só seria bonita assim.

Eu sempre achei cabelos curtos lindos, mas também cheguei a acreditar que não combinava comigo, com o formato do meu rosto e outras bobagens que enfiam na nossa cabeça. As imposições que nos colocam são tão destrutivas, que o cabelo que eu amava desde criança acabou se tornando uma prisão.

Eu me escondia no meio daquele cabelo, era minha zona de conforto, era meu jeito de me sentir um pouco bonita e mais próxima do padrão que eu desejava alcançar, por mais doloroso que o caminho fosse. Mas era uma ilusão, e, felizmente, eu cheguei no meu limite, todo aquele cabelo não cabia mais na minha vida. Eu me olhava no espelho e não reconhecia a pessoa que eu via. Eu queria me amar de verdade e para isso era preciso tomar uma decisão, uma escolha que eu sabia que dessa vez era realmente minha.

Essa decisão foi resultado de um processo de amor-próprio e autoaceitação que só iniciou quando entrei na faculdade. Mas, mais que resultado, posso dizer que essa decisão foi uma etapa da construção do meu amor por mim. E, um ano depois, posso dizer que esse foi o melhor presente que eu poderia ter me dado, porque a cada dia eu amo mais o reflexo que vejo no espelho.

Gostaria de dizer que meu processo de me amar já está completo, mas infelizmente não é tão simples. Por tantos anos ensinaram as mulheres a não gostarem do que viam no espelho, a querer mudar sua aparência e tentarem se encaixar em padrões inatingíveis, que o caminho contrário é árduo.

O caminho para a autoaceitação e amor-próprio é difícil, mas recompensador. Reconstruir a autoestima que nos tiraram logo que nascemos é um processo diário, que leva tempo, mas tem resultados incrivelmente satisfatórios. A sensação de finalmente gostar do que vejo refletido no espelho e do que está aqui dentro é inexplicável. Eu não me amo todos os dias, não me amo o tanto que eu deveria, mas eu me amo mais do que amei durante anos e isso já é ótimo.

Cada dia eu tento me desvencilhar de um novo padrão e encontrar beleza em um novo lugarzinho meu que antes eu só sabia odiar. E assim, sendo cada vez mais gentil comigo mesma, eu vou construindo meu caminho em direção ao amor e espero que um dia possa aceitar e amar cada pedacinho meu, como deveria ter sido desde o início.

Não me entendam mal, eu continuo achando cabelos longos lindos e não significa que mulheres que tem cabelos longos não se amam. O cabelo foi só um exemplo entre as tantas decisões que eu e todas as mulheres precisamos fazer todos os dias para tomar de volta as rédeas – que são tiradas de nós logo que nascemos – de nossas vidas e de nossos corpos.

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