Nanette
Opinião

Nanette: Não há nada mais forte do que uma mulher destruída que se reconstruiu O que uma hora e nove minutos de Hannah Gadsby me ensinou

17 de julho de 2018

Por Giovana Gomes

Ela só queria ter escutado uma história como a dela quando ela mais precisava.

O stand-up Nanette, feita pela comediante australiana Hannah Gadsby, não se trata apenas de uma comédia essencialmente autobiográfica e uma crítica do próprio processo de uma apresentação de humor. Hannah consegue recuperar algo nas pessoas que a ouviram de verdade, algo que já carregamos mas que em meio ao turbilhão de notícias ruins e desesperanças, podemos ir perdendo aos poucos: a conexão. A conexão entre eu e você, entre você e seu colega de trabalho, entre seu colega e um desconhecido, entre um grupo x de pessoas e um grupo y, entre todos nós.

Mas ela vai além disso. Hannah é lésbica e cresceu na Tasmânia, Austrália, onde a homossexualidade era crime até 1997. Portanto, Hannah vem pra questionar a história contada pelos homens brancos. Passa por temas como identidade, sexualidade, gênero, violência e homofobia, tudo isso com uma voz intensa e trêmula ao mesmo tempo: ela está completamente exausta de abordar esses assuntos de maneira autodepreciativa“Você sabe o que autodepreciação quer dizer, para alguém que vive à margem?”, ela pergunta. “Não é humildade. É humilhação.” Ela chega à conclusão de que é a forma errada de combater tantas agressões e preconceitos.

Vale lembrar que ela é comediante há pouco mais de dez anos e vêm resistindo a um contexto – ainda – conservador no ramo do stand-up. No começo do documentário, ela segue o ritmo das piadas e fórmulas humorísticas em que está acostumada na sua carreira. Até aí eu estava mesmo imersa nessa fórmula em que ela diz que é quando ela cria uma tensão e em seguida a alivia com o humor. Mas após isso a tensão ocupou mais espaço e a emoção tomou conta de mim.

Só a existência de Gadsby já incomoda uma parcela da população, é possível notar isso apenas vendo quantos deslikes o trailer do documentário possui. Ela mesmo diz que se fosse um homem fazendo o que ela criou coragem para fazer, as coisas seriam diferentes. Mas já que é ela, é apenas “uma lésbica furiosa estragando a diversão”. Eu lamento por aqueles que não se permitem a conhecer sua realidade que transpira bravura.

Formada em História da Arte, Hannah tem uma bagagem que muitos não suportariam carregar. Enquanto o documentário avança, cada vez mais o palco é preenchido com relatos pessoais difíceis de ouvir. São violências diárias que pessoas das minorias enfrentam e ninguém costuma estar do lado para ouvir ou tentar entender. E ali ela está dando voz a elas.  

Dói bastante. Dói engolir essas histórias a seco e de uma só vez. Eu precisei em um momento parar para respirar um pouco e em seguida partir pro próximo tapa na cara. Hannah é capaz de fazer você refletir sobre seu lugar de privilégio e sua empatia – ou a falta dela – durante toda sua vida.

“Aos homens na sala que se sentiram perseguidos por mim a noite toda: acertaram. Foi isso mesmo que eu fiz. Mas isso é teatro, rapazes. Dei a vocês uma hora, um gostinho do que vivi a vida toda”, diz Gadsby. Ela também sai do individual e vai para o coletivo, trazendo pontos muito importantes sobre a desigualdade na sociedade, desde à disparidade salarial entre homens e mulheres, os assédios sexuais, o machismo e a misoginia e também a falta de representatividade lésbica em vários contextos por aí.

Nós não estamos sozinhas

Hannah me ensinou inúmeras coisas, e uma delas é parar de ficar escondendo minha raiva. Por muito tempo, nós mulheres só sentimos culpa, não nos sentimos adequadas e suficientes e com isso somos ainda mais esmagadas. Me ensinou também que nossas histórias possuem valor e que não precisamos de permissão de ninguém para falar.

Me ensinou que o mundo de fato é um enorme caos mas que ele não surgiu do nada: há responsáveis por isso. Me ensinou que a humanidade é o que temos de mais bonito e que as únicas pessoas que perdem a humanidade são as que acham que têm o direito de tirar as forças de outro ser humano. Me ensinou que diversidade é força e que quem tem medo da diferença não vai aprender nada.

E, por fim, me ensinou que não há nada mais forte que uma mulher destruída que se reconstruiu.

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