briga de marido e mulher se mete a colher sim!
Opinião

Em briga de marido e mulher não se mete a colher?

11 de agosto de 2018

Por Beatriz Toledo

Nas últimas semanas, mais um caso de violência contra a mulher repercutiu nos holofotes do Brasil. Tatiane Spitzner, advogada, 29 anos, foi brutalmente assassinada pelo seu marido, Luís Felipe Manvalier, biólogo, 32 anos, na madrugada do dia 22 de julho. Casados há cinco anos, a briga que levou à expressão fatal começou após Tatiane ver uma mensagem de outra mulher no celular do marido. Ao chegar no condomínio, câmeras de segurança registraram o casal discutindo e a advogada sendo agredida ainda no carro. Luís Felipe dá um golpe na esposa, desacordando-a; em meio a chutes, ela acorda e tenta fugir, compreensivelmente sem sucesso; o marido usa da força para levá-la até o apartamento, onde minutos depois o corpo é encontrado na calçada, sem vida após a queda. Tais cenas indigeriveis de violência, captadas pelas câmeras, somam mais de 15 minutos. Vizinhos afirmam terem escutado a discussão, bem como gritos e pedidos de socorro.

Quem já morou em um prédio (ou não!) sabe como qualquer barulho – cachorro latindo, bebê chorando ou até mesmo ruídos de conversas e móveis sendo arrastados – é motivo para reclamações e/ou interferências dos vizinhos. Nesse caso, por que ninguém se manifestou?

No Brasil, há o enraizado ditado “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, que faz parte da predominante cultura machista. Desde cedo, é repassado, de uma forma ou de outra, que na vida íntima de um casal não se “intromete”. Pois é nesse mesmo contexto que os dados acerca do feminicídio nesse país são alarmantes. Segundo o Mapa da Violência de 2015, o Brasil ocupava a 5a posição no ranking mundial de violência contra a mulher: em 2013, a taxa era de 4,8 para cada 100 mil mulheres.

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Imagem retirada do dossiê da Agência Patrícia Galvão

A pesquisa realizada pelo Mapa da Violência afirma que em metade dos casos (registrados como feminicídio) a violência foi causada por algum familiar da vítima. Em 33℅ pelo parceiro ou ex.

Diante disso, cabe o questionamento se, de fato, em briga de marido e mulher não se mete a colher? Pois se mete, sim! É passado o momento para um grande BASTA sobre qualquer perpetuação dessa cultura machista que tem matado, torturado e oprimido mulheres.

Você, homem, reconheça seu papel, que socialmente imposto te coloca em superioridade, e não se omita. Você, mulher, jamais permita que o machismo te cale. Olhemos para os nossos arredores, para cada mãe, irmã, familiar ou amigas… É possível enxergar a forma como a cultura machista chega até nós. E é imprescindível que tenhamos voz para nos manifestar diante da injustiça, independente da situação.

Vale lembrar: em caso de flagrante de violência, você pode chamar a polícia pelo número 190. Se você souber de constantes agressões, é possível alertar sobre o caso no Disque Mulher, número 180.

Em meio a coleta de dados para esse texto, encontrei o aplicativo Mete a Colher, que busca auxiliar mulheres vítimas de violência. Apenas para público feminino, conecta mulheres que precisam de ajuda e aquelas que podem auxiliar – seja com apoio emocional, orientação jurídica ou oportunidade de emprego para quem precisa de independência financeira para sair de uma situação de abuso.

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