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Reportagens

A relação entre saúde mental e cuidado coletivo Qual a importância do autocuidado das mulheres nos movimentos sociais?

6 de agosto de 2018

Por Giovana Gomes

Saúde mental é algo que está cada vez mais ocupando seu espaço devido, assim como as mulheres nos ambientes da sociedade. E é fundamental que elas andem de mãos dadas. Os impactos físicos e psicológicos no cotidiano daquelas que dedicam o seu tempo para defender os direitos humanos e lutar contra as desigualdades podem ser inúmeros, portanto, o desenvolvimento de redes de apoio e políticas públicas é indispensável.

Quando se fala sobre saúde mental da mulher, muitos fatores entram em cena. Um deles é o processo histórico que envolve o conhecimento das mulheres sobre seus próprios corpos dentro da sociedade patriarcal e capitalista. Afinal, não foi um trabalho fácil para que o olhar e a atenção para o bem estar emocional, psicológico e social das mulheres tenha crescido ao longo do tempo. Também há os recortes raciais, étnicos, de classe e sexualidade dentro de tudo isso, pontos que sempre precisam ser lembrados.

No artigo chamado “O autocuidado como estratégia política”, a respeito da Iniciativa Mesoamericana de Defensoras de Direitos Humanos (IM-Defensoras), as especialistas Ana María Hernandéz e Nallely Guadalupe, questionam: “aquilo que é desejado para as pessoas que apoiamos está sendo praticado com nós mesmas quando se trata de cargas de trabalho e relações com os companheiros de luta?”. 

Elas salientam que o autocuidado é pessoal e coletivo: “Respeitar os dias e os horários de trabalho, estabelecer períodos de descanso e gerar mecanismos de resolução de conflitos. Esse princípio do autocuidado está ligado à ideia de que as emoções são sentidas por nós não apenas pelo fato de sermos humanas, mas pelo fato de vivermos coletivamente, de estarmos em constante relação com as pessoas“. 

Qual é o sentido da revolução se não podemos dançar?

Tal frase tem origem do discurso de Emma Goldman, uma das fundadoras do moderno movimento de luta das mulheres. Ela defendia a liberdade sexual e os direitos civis das mulheres, entre outras questões, muito ligada ao movimento operário. A dança simboliza o direito de todas as coisas bonitas e radiantes da vida, ou seja, nos diz que a alegria e os prazeres do cotidiano merecem ser valorizados tanto quanto os ideais que cada mulher possui.

Pois a partir do momento em que um sujeito singular também se enxerga como um sujeito múltiplo, ou seja, quando sai da zona de conforto de sua própria bolha e começa a se envolver em causas que acredita, ficando mais próximo de uma diversidade de pautas que fazem parte dos movimentos sociais, o ciclo de auto-cobrança costuma atingir níveis bem altos. A necessidade da desconstrução pode se transformar numa ânsia constante de repensar escolhas e refletir questões sem de fato parar e olhar pra dentro com um pouco mais de calma e sem culpa.

A angústia passa a tomar conta daquele desejo genuíno de mudanças. É tanta demanda a ser atendida, tanta coisa pra ler e pra colocar em prática que os ambientes sociais começam a causar medo. E o peso da existência aumenta. Nesse contexto, é importante lembrar que a cada dia buscamos ser alguém que exerce empatia e compreensão sim, mas que também somos falhas e não devemos nos condenar por isso.

Sentimentos como raiva, solidão, preocupação, desespero, entre outros, vão aparecer quando estamos imersas no ativismo. O ponto é que não devemos nos prender a eles, precisamos nos libertar, praticar a autocrítica e o perdão e trabalhar dia após dia os sofrimentos de uma realidade difícil, para que eles não te paralisem.

Mostrar sua vulnerabilidade em qualquer ambiente nunca vai ser uma tarefa simples. Pode ser muito cansativo e esmagador no início, causando muitas lágrimas e instabilidades. Mas quando a consciência de que a saúde mental afeta as maneiras de se fazer ativismo se instala de vez, a visão do todo também muda: os julgamentos diminuem e dão lugar para as discussões saudáveis, as pessoas ficam mais confiantes e poderosas e os processos de reconhecimento e pertencimento se tornam menos torturantes. 

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Investimentos em saúde mental: o bem-estar é um direito

Também é papel do Estado oferecer mecanismos que auxiliem as mulheres a formarem vínculos e a falarem sobre bloqueios e traumas, passando a compartilhar umas com as outras as dores que costumam aparecer tanto na esfera individual quanto coletiva. O bem estar precisa ser um assunto discutido dentro das organizações e financiado. Dessa maneira, mulheres que mergulham de cabeça para combater questões racistas, misóginas, LGBTfóbicas e machistas se sentirão mais acolhidas. E se somos fortalecidas no nosso mais íntimo, consequentemente seremos mais fortes na relação com os outros também

Os recursos distribuídos para as organizações e movimentos sociais no sentido de gerar reflexões e ações conjuntas não podem ser negligenciados na conjuntura atual: as mulheres estão numa situação de estresse e esgotamento intensos na busca pelo fim de retrocessos políticos. Mas parece que a invisibilidade que tanto já nos perseguiu ainda continua tirando nossa liberdade diária: a Emenda Constitucional 95, que congela os gastos sociais do governo, já está afetando as políticas de Atenção Básica e de Saúde Mental, atingindo mais as mulheres.

De acordo com Atlas de Saúde Mental 2017, da Organização Mundial da Saúde (OMS), alguns países progrediram em relação ao planejamento de políticas de saúde mental, mas a falta de profissionais treinados nessa área e de investimentos em instalações para a comunidade ainda são problemas a serem solucionados. Através de uma pesquisa com 177 Estados Membros da Organização, representando 97% da população mundial, foi possível descobrir que menos da metade dos 139 países que instituíram políticas e planos para a saúde mental, estão de fato ajustados com as convenções de direitos humanos que ressaltam a importância da transição da instituição psiquiátrica para serviços baseados na comunidade, e também participação de pessoas com transtornos mentais nas decisões voltadas a ela.

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Foto: gettyimages

Os movimentos precisam da gente 

Ariely Fonseca, estudante de Relações Públicas da Unesp de Bauru, é militante da UJC (União da Juventude Comunista) e atua no movimento estudantil. Além disso, também é representante dos discentes da Unesp no Fórum das 6, membro do Dadica (Diretório Acadêmico Di Cavalcante), representante discente na Congregação da FAAC e já foi presidenta do Cacoff (Centro Acadêmico de Comunicação Florestan Fernandes). Diagnosticada com Transtorno Afetivo Bipolar, passa por períodos de depressão e ansiedade e está em tratamento, e diz que se envolver no movimento estudantil a ajudou muito, pois lá encontra apoio e motivação.

“Estar num ambiente em que todo mundo está lutando em prol da mesma coisa — uma universidade mais popular, uma sociedade mais igualitária, com o fim do patriarcado e do capitalismo — me motiva, porque muitas das questões que afligem e adoecem a gente, vêm do contexto social que nos encontramos, estando diretamente relacionadas com as mazelas do capitalismo e com as agressões que a gente sofre do machismo, e ver que estou lutando contra isso junto com outras pessoas é um grande aprendizado e é uma somatória de forças que acho que só tem a agregar”, comenta a estudante. 

A militância é exaustiva e uma grande correria, afinal de contas eles trabalham, militam e estudam, mas ela afirma que na organização que participa procuram sempre ter esse cuidado e preocupação com a saúde mental, sendo uma das principais pautas:  “A gente tenta distribuir as tarefas de acordo com a disponibilidade de cada um, e isso é muito bom. Nossos pensamentos são sempre pela luta de classes e pelo coletivo, portanto cuidar da sua saúde mental é sim uma forma de resistência, ainda mais hoje que muitas mulheres e negros morrem”.

Ela também conta que esse cuidado acaba sendo uma troca, e que procurar ajuda profissional é muito importante, assim como fazer atividades físicas regularmente e ter uma alimentação equilibrada, pois tudo isso está diretamente ligado com a saúde mental. “Temos que prezar por todos nossos companheiros de luta, pois a sociedade quer que a gente não esteja saudável, tem mil forças indo contra nós e a gente precisa estar forte e mentalmente bem pra poder lutar contra tudo isso”, finaliza Ariely.

Os desafios de um caminho mais leve

A arte da inclusão e do encontro coletivo está completamente ligada à autoestima de cada uma. A renovação do relacionamento conosco nos tempos atuais e o amor próprio – se conhecer e prestar atenção nos sinais da mente e do corpo – atinge diretamente o relacionamento com as outras pessoas. Vale lembrar que muitas mulheres foram educadas a amar os outros, mas não elas mesmas, então muitas vezes esse processo pode dar uma sensação de egoísmo a elas. Isso é um equívoco que também deve ser combatido.

Existem muitos momentos de desesperança em que a vontade é apagar da memória todas as notícias e experiências ligadas à realidade repleta de desigualdade, cultura do estupro, racismo, entre outras violências que sabemos que faz vítimas todos os dias. Tem hora que o que a gente mais quer é desistir de tudo e esquecer que existimos.

Então também são nesses momentos que temos que conversar com nós mesmas e nos lembrar que as lutas e iniciativas que participamos fazem a diferença, mas é preciso o equilíbrio: ao cuidar de nós, também estaremos cuidando do mundo, e os aspectos pessoais também são válidos para entrar nas discussões nos espaços. Falar e se escutar também é uma forma de resistência.

No livro “Cuidado entre ativistas – Tecendo redes para a resistência feminista”, das autoras Guacira Cesar de Oliveira e Jelena Djordjevic, são descritas estratégias de autocuidado e cuidado coletivo e o Cinco Estações preparou um infográfico com alguns dos tópicos:

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Arte: Giovana Gomes; Texto: “Cuidado entre ativistas – Tecendo redes para a resistência feminista”

Lembrem-se!

Autocuidado também é buscar ajuda de profissionais da área, psicólogas e psiquiatras. Em Bauru existe algumas maneiras de se conseguir o atendimento gratuito, confira as opções no folheto realizado por alunos de design da Unesp em um projeto voltado para a saúde mental: clique aqui para acessar.

Links: 

Esse é um assunto muito importante e extenso, tentei abranger o máximo de informações dentro dos limites de uma reportagem, mas caso você tenha interesse em se aprofundar, confira os links citados e bons estudos!

Artigo:  “O autocuidado como estratégia política”

PDF do livro:  “Cuidado entre ativistas – Tecendo redes para a resistência feminista”

 

 

 

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