Cotidiano

O poder dos nossos fios invisíveis

15 de outubro de 2018

ARTE: Poeticamente Flor 

Por Giovana Gomes

Vida midiática. Teorias da comunicação.  “Juntos e sós”. Sempre conectados, mas sempre sós.

A sala falava exemplos. Muita coisa a ser dita. E, mais ainda, quase dita.

O professor indaga:

– Então vocês acreditam nesse negócio que, afinal, estamos sozinhos mesmo?

– Professor, eu não acredito. Podemos sim nos sentir sozinhos. Em tantos, tantos momentos… Mas não estamos não.

A frase apenas saiu. Eu nem sabia se tava dizendo aquilo mesmo. E o porquê. Mas tinha vontade de gritar: eu também tô perdida. Só preciso tentar pensar dessa forma, senão não vou conseguir seguir em frente. Não vou, entende?

Tem dias que eu chego em casa e choro muito. Fico deitada a noite inteira e finjo que não tenho responsabilidade nenhuma. E aí vejo as notícias assoladoras sobre o país. E choro de novo. Mas mesmo assim não posso balançar a cabeça, e aceitar que cada pessoa esteja só e que não há muito o que possa ser feito. Simplesmente não dá.

Somos capazes de mudar isso aqui. Estamos conectados, sim. Mais do que qualquer coisa. Mídia invisível? Eu ainda estou tentando entender, professor. Mas nos fios invisíveis que passam por cada pessoa, nesses eu acredito, e muito. Como fomos ficar tão distantes… podem existir teorias, pesquisas sobre, mas a verdade é que não sei. Não sei de – quase – nada, mesmo. Mas tenho esperança.

Dói bastante, rasga o peito. Só que não estamos sós não. Que levemos isso com a gente. Senão não vou aguentar. Não estou aguentando. Nem você. Nós precisamos dialogar, nos encontrarmos e passarmos tempo uns com os outros. Estamos machucados, mas confio na força que carregamos e como podemos cuidar dos nossos em tempos tão sombrios.

Estão querendo arrancar nossos direitos e precisar explicar isso inúmeras vezes para pessoas que não estão dispostas a ouvir, pessoas imersas numa maré de mentiras, é um desafio que suga muito da gente. Eles visam sim nos paralisar e tirar nossa coragem, portanto, lembre-se: o autocuidado também é uma ferramenta política. Nos amar e compreender nosso medo, raiva e desespero é uma forma de resistência que nos protege, e que ajudará a nos restabelecer.

Entender nosso papel durante esse período turbulento é também perceber que às vezes vamos precisar respirar. Durante um ou dois dias, falar sobre outros assuntos, fugir um pouco da realidade, se afastar. O que ainda é uma maneira de lutar. A luta não para, está presente nos detalhes.

E vamos continuar seguindo: tirem as mãos dos nossos direitos!

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *