apenas cães
Opinião

Muito mais que apenas cães Série original da Netflix nos ajuda a compreender o poder dos cães na vida das pessoas, mas vai além, nos levando a pensar sobre a sociedade e a vulnerabilidade das relações

17 de dezembro de 2018

Por Giovana Gomes

Sim, a série documental que teve sua estréia no dia 16 de novembro na Netflix trata muito sobre cães, das mais diversas maneiras. São 6 episódios no total, capazes de te tocar de forma que você nem imaginaria. Cachorros aventureiros, fiéis, filhotes ou mais velhos, em abrigos, países refugiados, casas, aldeias. Mas ao assisti-los, é possível perceber que através da conexão humano-cão — uma das coisas mais bonitas que a vida pode nos proporcionar — a série também passa por questões culturais e sociais e chama a atenção para problemáticas muito presentes ao redor do mundo.

Um exemplo é o segundo episódio, que traz a temática da vida que os refugiados sírios levam e as dificuldades que enfrentam. Ayham é um deles, que atualmente mora em Berlim, Alemanha, mas que ainda precisa resgatar seu cachorro, o Husky siberiano chamado Zeus. Ele está em Damasco, uma das cidades arrasadas pela guerra, sendo cuidado pelo melhor amigo de Ayham.

O que me pegou nesse episódio é a constante tensão em que as famílias da Síria se encontram, onde a paz de simplesmente poder curtir um dia com seus amigos, familiares e seus companheiros peludos desapareceu, e o medo e a saudade (por conta das separações, da distância) tomaram conta da rotina dos mesmos.

Outro episódio que “Apenas Cães” consegue tocar na ferida da (falta de) estrutura e empatia por parte de uma parcela da população é o episódio sobre o Território dos Zaguates — zaguate significa vira-lata de rua para os costarriquenhos — um abrigo para cães abandonados, o maior do mundo, sendo um refúgio para os animais e custeado por doações e fins privados.

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Cães no Território de Zaguates, abrigo em Costa Rica

O território já está em condições de superpopulação, contando com quase mil cachorros, e é muito triste testemunhar a vida dos responsáveis pelo local, pois eles recebem ligações diárias de novos casos de abandono, provando que infelizmente o governo e o país como um todo estão longe de resolver esse problema (não só na Costa Rica, sabemos que outros países, como o Brasil, passam por uma situação muito semelhante).

As pessoas que ajudam no abrigo fazem o possível para proporcionar uma melhor qualidade de vida para os animais, mas chegou um momento em que eles precisaram parar de resgatar por um tempo, para não prejudicar aqueles que estão sob seus cuidados. Afinal, mesmo que o Território dos Zaguates possua bastante espaço ao ar livre, é uma questão muito mais delicada e não depende apenas de um abrigo e sim da união e organização coletiva entre toda a sociedade.

Acredito que “Apenas Cães” não seja daquelas séries que dá pra maratonar tudo de uma vez. Todo episódio, com cerca de 50 minutos cada, conta com uma narrativa diferente, com vários momentos de leveza, sutilezas e muito amor, mas também com instantes de reflexão profunda que a gente precisa absorver com calma. Eu mesma demorei umas duas semanas ou mais, não lembro exatamente, para terminar.

Não que eles sejam como os filmes de cachorro que tem por aí, em que nos inundamos de chorar com os finais (quem assiste sabe do que estou falando), mas é emocionante de um jeito único, em que você fica feliz por estar assistindo e podendo ter o privilégio de ver tais histórias reais, e eu chorei mesmo, chorei muito, por me sentir abraçada e por muitas vezes consolada, já que perdi minha cachorra no ano passado e era impossível não lembrar dela.

Produzida por Glen Zipper e pela documentarista indicada ao Oscar Amy Berg, a série também conta com outros episódios comoventes: sobre cães que são treinados para ajudar pessoas com alguma condição médica, como epilepsia por exemplo; sobre o companheirismo de labradores, sendo o caso de Ice, que junto com seu dono Alessandro, ajuda na pesca e nos negócios da família em um lago italiano; sobre profissionais que se dedicam à tosagem de cães no Japão e Estados Unidos e também sobre uma jovem de Nova York dona de um abrigo que se entrega fielmente ao trabalho de trazer cães desabrigados do Texas para encontrarem um novo lar.

Essas histórias são contadas pelos próprios personagens, com relatos e depoimentos pessoais, colaborando ainda mais em causar sensações espontâneas nos telespectadores, com momentos eletrizantes que criam um clima de identificação bem forte. Confesso que ainda vou pensar muito sobre a série e já estou ansiosa para a segunda temporada!

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