Opinião

“Ele é bonito ou só é branco?” – Entenda os padrões e estereótipos brancos e negros

11 de dezembro de 2018

Por Letícia Pinho 

O conceito de beleza é relativo. O discurso que prega que cada pessoa dispõe de sua liberdade para achar algo belo ou não é importante e necessário (assim como aquele que diz que cada um deve cuidar da própria vida).

No entanto, é inegável que padrões de beleza eurocêntricos tenham nos direcionado há muito tempo, e ditado aquilo que nos será agradável aos olhos, seja através da mídia, da indústria audiovisual ou dos próprios critérios que regem os concursos de beleza.

O padrão de beleza eurocêntrico fez com que um conjunto de características – que vai desde a cor da pele até comportamentos específicos – se tornasse requisitoPara falar sobre isso, vamos voltar um pouco na história.

Durante o início do século XX, no Brasil, a elite defendia ideais eugenistas (muito parecidos com o modelo alemão de raça pura), que eram usadas para justificar discriminações e legitimar os brancos como mais capazes psicológica e intelectualmente.

Baseados na teoria da seleção de Darwin, as políticas de embranquecimento defendiam desde o controle de casamentos até a esterilização da população considerada inferior, além das políticas de imigração para europeus.

Mais tarde, foi vista na miscigenação também uma forma de tornar a pele dos cidadãos brasileiros mais clara – os eugenistas achavam que, se pessoas de cores de pele diferentes se reproduzissem, seus descendentes iriam sendo clareados, até que não existisse mais a raça negra, que era considerada um fardo e responsável pelos problemas sociopolíticos da época.

Após a Segunda Guerra Mundial, o conceito de “raça” passou a ser discutido no mundo todo. O Brasil começou a ser, então, visto como um paraíso racial, em que pessoas diversas conviviam em harmonia.

É claro que isso não era verdade, uma vez que o racismo, mesmo não se expondo em regimes de segregação como as leis Jim Crow  nos EUA ou o Apartheid sul-africano, continuava a ser difundido de muitas outras formas, nos meios de comunicação e na manutenção do poder da elite branca.

Por outro lado, ao falarmos de padrões brancos, também precisamos falar sobre os estereótipos que recaíram sobre os negros conforme a história. A miscigenação – cuja normalização justifica estupros – selou o modelo hipersexualizado do corpo negro, onde essa população é vista apenas como sinônimo de sexo e prazer – e isso ajuda a difundir até mesmo a indústria do turismo sexual no Brasil.

Tomando exemplos atuais, podemos falar sobre a Globeleza (uma mulher seminua que une o samba, o Carnaval e a sensualidade) e a constante afirmação e reafirmação do homem negro como um cara de pau grande. Baco Exu do Blues, rapper baiano, lançou recentemente um álbum chamado “Bluesman”, que ele mesmo diz que é uma jornada pela saúde mental do homem negro (poderíamos ficar horas falando sobre psicologia e negritude, mas isso é assunto para outro texto).

O problema foi que as pessoas começaram a associar as músicas como “para transar”, sem se importar com toda a carga emocional colocada no trabalho ou a interpretação das letras, que exploram assuntos normalmente dissociados do recorte de raça – e que precisam ser tratados dessa forma.

Várias digital influencers brancas, que enegreceram seus corpos através de procedimentos estéticos para ganharem curtidas e visualizações, também ajudam a banalizar o corpo e a cultura negros como puramente comerciais (o que podemos chamar de black money).

Essa análise temporal nos faz concluir que o conceito de beleza vai muito além da aparência física, e muitas decisões históricas foram e continuam sendo responsáveis por conservar o olhar racista que dita o que é ou não bonito e o que pode ser ou não exposto dessa forma. Muito acima da estética, estão interesses de poder social, político e econômico de uma elite que é branca e quer continuar assim.

 

Posso tocar no seu cabelo

Bunda africana, olha esses peitos

Eu acabei com o preconceito

Fui pra cama com um preto

Ele tem cara de mau

BK’, Exóticos

 

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