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Bissexualidade: uma comparação entre duas realidades Em um desabafo sincero, sob a ótica da mulher bi, tento contar um pouco das principais diferenças sociais de se namorar um homem e uma mulher

19 de março de 2019

Ilustração: Reprodução | Pinterest

Por Milena Vogado

Sou mulher e bissexual. Namorei por quase três anos com outra mulher. Hoje, namoro, já há alguns meses, um homem – e todos os dias consigo notar inúmeras discordâncias entre as duas relações. Assim, posso afirmar: a maior diferença não se encontra no toque, no beijo ou no sexo. Ela não está em nós, está em quem nos vê de fora.

Quando conheci a minha ex namorada, eu já conhecia minha sexualidade. Sabia também que eu queria namorar, mas não qualquer pessoa: teria que ser alguém que eu pudesse apresentar à minha família e criar uma relação sem maiores restrições. Mas a vida seguiu um caminho totalmente contrário: eu me apaixonei e foi por uma mulher. Do começo ao fim do relacionamento, o fato de ela ser quem é ditou várias regras sobre nós.


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Primeiro, para todos os efeitos, ela era só minha amiga. Quando a relação amadureceu um pouco mais, o momento mais difícil que já encarei no ambiente familiar chegou: eu precisava me assumir. A família dela nos aceitava e acolhia, eu sentia que devia lhe proporcionar o mesmo.

Infelizmente, não consegui. Quando eu me assumi, precisei sair de casa e, quando retornei, tive que evitar o assunto. Minha mãe nunca a tratou como minha namorada e, depois de certo tempo, eu nem lutei mais por isso, pois me bastava que ela me aceitasse em casa e me deixasse visitá-la de vez em quando.

Eu aprendi a viver com inúmeras limitações que nunca tiveram fundamento algum. Foram quase três anos com medo, insegurança e vergonha.

Agora, eu vivo uma relação totalmente diferente nesse aspecto. Nenhum dos entraves mencionados estão presentes – não por conta do gênero. Minha família reconhece meu namoro e o apoia. Muitos agem como se fosse uma grande novidade eu me relacionar com alguém.

Tenho um tio que me mandou uma mensagem dizendo “eu vivi para te ver namorando”. Acontece que ele já tinha visto antes, só não tinha enxergado. Minha irmã mais velha chamou isso de memória seletiva – e eu acho um termo bem cabível.

Outro tio brincou: “esse namoro vai dar em casamento” e passou a chamar meu namorado de meu noivo. Esse tipo de brincadeira não acontecia antes. Minha mãe nunca me perguntou “como vai sua namorada?”, mas sempre pergunta como meu namorado está.

Se algum familiar me liga altas horas da noite e eu digo que estou com meu namorado, significa que está tudo bem. Lembro que, há um tempo atrás, estar com minha namorada no meio da tarde já era motivo de preocupação. As diferenças, infelizmente, não se limitam à família.

Eu nunca fui abordada na rua por beijar meu namorado, mas já fui por beijar minha namorada. Nunca o apresentei como meu amigo à minha família, mas já fiz isso com ela. Nunca tive receio de demonstrar afeto em público com ele, mas já perdi a conta de quantas vezes tive medo ao lado dela.

Todos os dias, para nós, eram dias de resistência – pelo simples fato de ela ser mulher e eu também. Nossa relação sempre foi cercada de limitações atreladas ao nosso gênero.

 

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Quando estávamos juntas, a gente tinha medo do mundo. Nossos gestos eram milimetricamente calculados em público. Eu precisava lembrar que estávamos na rua e eu não poderia tratá-la da forma que queria. Precisava lembrar que qualquer passo em falso poderia, literalmente, custar nossas vidas. Eu precisava lembrar que, para certos familiares, nós éramos apenas melhores amigas inseparáveis.

Eu precisava lidar com os olhares, os comentários e a lesbofobia que nos cercavam. Eu também precisava lembrar a todo instante que nossa relação não era respeitada. Nós éramos fetiche, quando não, motivo de piada. E eu sei que meu atual namoro jamais passará pelo mesmo – de novo, não em questão do gênero.

Ter os privilégios de uma relação heteronormativa ainda é muito novo (e curioso) para mim. Quando comecei meu novo relacionamento, essas diferenças passaram a me revoltar. Eu não podia acreditar que o afeto e a confiança que minha família tinham em mim aumentaram após verem que, agora, eu estou com um homem. Minha ex sempre dizia que isso aconteceria – e eu odeio que ela esteja certa.

Conversando com uma amiga também bissexual (que preferiu não se identificar por medo de se assumir), ouvi seu desabafo sobre essa problemática. “A gente tinha que prestar atenção no nosso comportamento“, disse. Até a despedida devia ser cautelosa: apenas um selinho tímido, se ninguém suspeito estivesse por perto. Já com um namorado homem, não havia medo pela troca de afeto em qualquer situação.

Essa mesma amiga me disse algo com o que me identifiquei ainda mais: o sentimento é igual, mas, quando se ama uma mulher, o medo está envolto na relação. Quando se ama um homem, não. Além disso, também encontrei semelhanças entre nossas famílias: a dela, como a minha, sentiu um alívio ao vê-la com um homem, pois ser lésbica seria a pior coisa do Universo.

 

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Já outra amiga me falou sobre as diferenças entre se relacionar com um homem e uma mulher logo no primeiro contato. “Tenho medo de abordar uma menina de uma forma que a deixe desconfortável. Com homens, esse medo não existe”. Ela também tocou num assunto que sempre me incomodou: a rivalidade feminina existe também dentro da relação lésbica. Isso soma mais insegurança ao ato de se relacionar com uma mulher, pois há o medo de reproduzir machismos sobre a sua companheira. Contudo, ela colocou a relação entre duas mulheres como muito mais íntima emocionalmente, uma vez que ambas se enxergam em situações e sofrem opressões semelhantes.

Uma amiga de infância também compartilhou comigo seu sentimento sobre essas diferenças. Para ela, o toque, o beijo e o sexo diferem-se muito, mas a divergência mais gritante é a forma como as pessoas olham. “Coisas simples se tornam coisas enormes, por exemplo, o simples fato de estarem de mãos dadas, um ato mais carinhoso em público ou até mesmo um beijo. As pessoas não olham da mesma forma”. Em meio a tantos olhares tortos, ela ainda consegue notar os que carregam carinho – porém estes são raros.

O receio dos olhares negativos hoje a impede, quase por completo,  de andar de mãos dadas na rua com outra garota. “Parem e reflitam se é necessária toda essa diferença social imposta – são apenas pessoas se amando e, se você não gosta, faça o mínimo e respeite”, é seu pedido.

Larissa, também bissexual ainda não assumida para a família, protagonizou situações desagradáveis com uma ex companheira. As duas garotas, que sempre carregaram o receio de demonstrar afeto em público, chegaram a criar formas de darem as mãos sem torná-las aparentes – e,  quando olhos pousavam sobre elas, as mãos soltavam-se automaticamente. A companheira já foi vítima do olhar persistente de um senhor durante uma viagem de ônibus, após se despedirem com um simples selinho.

Em outro episódio, também no transporte público, um homem elogiou o fato de estarem de mãos dadas, dizendo que isso representava uma amizade eterna. “Eu fiquei feliz porque ele estava de boa, mas triste por isso de ‘amizade’ e, também, nervosa porque achei que ele ia falar algo para nós”, contou, demonstrando que sempre carrega o medo consigo.

Ser bissexual nunca foi fácil ou motivo de alívio. Reconheço meu privilégio em poder ter relações heteronormativas, mas isso não é razão para diminuir a luta do bi. Tanto em relações hetero quanto homossexuais, enfrentei a ridicularização da minha sexualidade. Ouvi coisas desde “você não sente falta de pênis?” a “você não pode fazer parte do coletivo LGBT por não ser totalmente gay”. E a clássica “você vai me trocar por algo que eu não posso ser”.

Bissexualidade bandeira

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Ouvi também que agora sou “mais mulher”. Entendam: não há intensificador quando se trata de ser mulher, independente de quem se ame. Não mudei quem sou ao mudar com quem me relaciono. Pedindo licença a Baco: sou resultado das pessoas que amei.

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