filme A Mula
Cotidiano

CRÍTICA: A MULA, de Clint Eastwood O olhar de uma jovem espectadora sobre o trabalho do ator e diretor de 88 anos

12 de março de 2019
Por Victória Rangel

A Mula se trata da vida de um senhor rural do estado do Michigan, que se dedicava mais às flores que plantava em seu terreno e as feiras de, do que a própria família. Ao perder sua propriedade por não conseguir hipotecá-la, Leo Sharp se vê sem chão e parado na porta do jantar pré-nupcial de sua neta. É nesse evento que o idoso conhece um rapaz que muda sua vida ao indicá-lo para um trabalho em que Sharp ganharia muito dinheiro e poderia se reconciliar com a família, ajudando a financiar o casamento da neta. O trabalho – ser o transportador (ou mula) de um cartel de drogas da sua região.

Aqui, Clint Eastwood, conhecido por seus papéis em filmes de Cowboy, atua e também dirige – é ele o velhinho especial de quem falamos agora – inspirado em uma história real. Afastado de seus entes queridos, de quem pareceu nunca ter sido próximo, o personagem de Eastwood é solitário e vive baseado em preconceitos que vai desconstruindo ao longo da narrativa. A produção, contudo, abusa de discursos prontos para embasar uma ideia, e isso pode ser notado na concepção negativa que a família tem do pai, com diálogos clichés que chegam quase a supor que o espectador não é lá muito inteligente.

A temática da relação familiar, inclusive, ganha bons minutos na tela e poderia ter sido melhor explorada caso o diretor não tivesse gasto-a nas trocas de farpas e atitudes emocionadas que os membros têm. A contagem das viagens que Sharp faz para seu novo contratante também é longa demais e a sinalização dos dias nos faz ansiar que já tenham se passado dezenas de vezes desde que Sharp entrou para o mundo do crime – número que não deve passar de dez, ao todo.

Clint Eastwood como Earl Stone
Clint Eastwood como Earl Stone

Bradley Cooper, outro nome importante da obra, surge como quem vai ser uma das personagens que mais aparece na trama. Ledo engano. Em A Mula, Cooper se configura quase como um inimigo coadjuvante do herói senil do comércio de cocaína e, ao que tudo indica, merece mesmo só aparecer depois do terceiro parágrafo desta resenha.  

A produção da história, ainda que ela seja declaradamente cansativa na tela, é de muita qualidade e leva o espectador a sempre duvidar: seriam as motivações do idoso altruístas para sua família e sua comunidade, ou teria ele traficado porque queria se sentir bem fazendo isso? Dilema esse que é sutilmente colocado por Clint Eastwood, cuja atuação, sem sombras de dúvida, se mostra impecável aos olhos de quem está assistindo.

No fim dos 116 minutos, continua difícil decidir se devemos nos sentir compadecidos com o idoso ou nos apegar ao senso moral de justiça de que “aquilo que é certo é certo e o que é errado é errado”. Afinal, com o fim da vida se aproximando, você também escolheria traficar drogas se pudesse ganhar muito dinheiro com o trabalho?

Para responder, vale a pena assistir À Mula – apenas certifique-se de não estar com sono e prepare-se para admirar o que o herói dos bang-bangs de quase 90 anos tem a oferecer como ator.

Confira o trailer:

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