Futebol feminino - FOTO: Agência Brasil
Impedimento

Quem torce pelo futebol feminino no Brasil? Falta de exposição da modalidade alimenta amadorismo do futebol feminino no país

25 de março de 2019

Por Paula Berlim

Foto: Agência Brasília

 

O futebol feminino europeu teve motivos para comemorar neste mês. Apesar da falta de visibilidade da modalidade no mercado, a partida entre Atlético de Madrid e Barcelona quebrou recorde mundial de público neste domingo (17), com 60.739 mil torcedores presentes no Wanda Metropolitano, na Espanha, válido pela liga nacional. Com a vitória de 2×0 sobre as donas da casa, o Barça abriu vantagem de três pontos na liderança em relação ao Atlético na competição. Uma semana depois, a equipe do Juventus, na Itália, recebeu cerca de 39 mil torcedores em sua arena – com capacidade para 41.507 pessoas – na vitória de 1×0 sobre a rival Fiorentina.

Números Anteriores

O recorde anterior datava de quase 100 anos atrás, em 1920, em que 53 mil pessoas acompanharam Dick Kerr’s Ladies versus Helen’s Ladies, no Goodinson Park, na Inglaterra. Desde então, apenas em 2018, o número chegou perto: 51.211 torcedores na final da liga mexicana entre Monterreys e Tigres, e 45.423 presentes na final da FA Women’s cup, também em 2018. No Brasil, contudo, a realidade revela-se cruel para a modalidade: o recorde de público no campeonato brasileiro feminino é de 25 mil pessoas na Arena da Amazônia, em 2017, para a semifinal entre Iranduba-AM e Santos.

Quase 40 mil pessoas acompanharam vitória da Juve no futebol feminino.
Quase 40 mil pessoas acompanharam vitória da Juve no futebol feminino. Daniele Badolato/Juventus FC via Getty Images

 

Contexto Brasileiro

O futebol feminino no Brasil ainda sofre com o tratamento amador da modalidade, apesar do esforço da CBF em promover a categoria. Em comparação com o público recorde de Madrid, o número total de torcedores presentes na primeira rodada do campeonato brasileiro feminino em 2019 não totaliza nem um sexto do público na Espanha. Mesmo com entrada franca na maioria dos jogos, menos de 10 mil pessoas acompanharam a rodada do brasileiro.  Algumas partidas, por exemplo, contaram com apenas 200 torcedores presentes, como Vitória-BA x Audax-SP e Santos x Fox Cataratas-PR. Pela liga Espanhola, os ingressos foram vendidos por 5 euros (cerca de 22 reais), com entrada gratuita apenas para sócios do Atlético.

Fatores como falta de transmissão e de patrocínio são impedimentos para os crescimento do gênero no país. O Campeonato Brasileiro perdeu seu principal patrocinador em 2018, a Caixa, que investira cerca de R$ 10 milhões na modalidade e, desde então, a CBF é quem arca com os custos das equipes femininas. A entidade busca investir esforços para a expansão do campeonato com medidas como dobrar o número de equipes na série b.

Isso devido à obrigatoriedade dos times masculinos da Série A do brasileirão a montar uma equipe feminina em seu plantel. As equipes recém formadas começam na segunda divisão do campeonato, como é o caso da mais nova equipe feminina do Palmeiras. No entanto, a obrigatoriedade não garante investimento profissional nos times femininos, uma vez que apenas 8 das 52 equipes inscritas registraram todas as suas atletas com carteira profissional no regime CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) segundo levantamento da Folha de São Paulo.

O estudo afirma também que algumas equipes investem em suas jogadoras por meio de bolsas em faculdades, ajuda de custo abaixo do salário mínimo e bolsa-auxílio de prefeituras. O elenco de São José, por exemplo, conta com R$ 50 mil da prefeitura para custear toda a equipe. O elenco do Corinthians, por sua vez, um dos mais competitivos junto com o Santos, conta com R$170 mil de folha salarial, insuficiente para cobrir todas as jogadoras com CLT.  A disparidade para com o masculino não é apenas a nível salarial, mas também na utilização de estruturas para treinos e jogos. No Brasil, essa configuração é ainda mais presente em relação ao futebol feminino nacional.

O que elas dizem?

As brasileiras Andressa Alves (Barcelona) e Ludmila Silva (Atlético) se enfrentaram no clássico espanhol em Wanda Metropolitano e comentaram a diferença de profissionalismo com a modalidade entre a Europa e o Brasil para o jornal Época. “O Atlético divulgou que o jogo ia ser no Wanda Metropolitano dois meses antes da partida. Estava em todos os lugares em Madri, em todas as redes sociais das jogadoras, dos jogadores e do clube. No Brasil, não tem essa divulgação. As pessoas às vezes nem sabem que tem um clássico, um jogo importante”, comparou Andressa. “Aqui recebemos muito melhor. Estrutura, organização e divulgação ainda estão um passo à frente em relação ao Brasil, conclui.

Afinal, o brasileiro feminino carece em exposição midiática e transmissão de jogos. A edição de 2018 não teve nenhuma televisão com transmissão dos jogos, apenas o serviço de streaming da CBF – e só na final do campeonato. A consequência é a dificuldade de patrocínios para investimento e crescimento da modalidade. Para este ano, a CBF fechou parceria com o Twitter. A plataforma transmite, ao vivo, um jogo por rodada na fase de grupos, quartas de final e semifinal, além dos dois jogos da grande final. Na primeira rodada do campeonato, Corinthians x Ponte Preta estrearam o serviço de transmissão da rede social com cerca de 167 mil visualizações.

“O Twitter é uma plataforma que sempre está ao lado do esporte e do futebol. Vê-la apostando no feminino, tendo em vista a visibilidade que a plataforma pode dar, nos enche de esperança para o futuro da categoria“, comentou o diretor de competições da CBF, Manoel Flores, em nota.

Para assistir aos jogos do campeonato brasileiro feminino basta seguir o perfil do Brasileirão Feminino (@BRFeminino).

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