Opinião

Relações abusivas, sob a socialização feminina Por que permanecemos?

29 de março de 2019

Foto: Obra “Submissão e Negação”, do Adriano Albuquerque

Por Bia Toledo

Submissão. Substantivo feminino. “Condição em que se é obrigado a obedecer; sujeição, subordinação”. Negação. Substantivo feminino. “Ato ou efeito de negar”.

O debate sobre relações abusivas ascendeu nos últimos anos e a pauta nunca esteve tão visibilizada em nossa sociedade. Diversas são as formas e conteúdos que podemos encontrar para nos informarmos acerca do assunto. Somos milhões de mulheres que já vivenciaram, em algum momento, um relacionamento abusivo; e se não sentimos em nossa carne, vimos uma de nós sentir. Como num efeito dominó inverso, levantamos umas às outras e, peça por peça, seguimos – deixando o silêncio para trás. Mas ainda há tanto a ser dito.

Recentemente me encontrei em uma relação abusiva. Não foi a primeira vez: a última, até então, havia acontecido há três anos atrás, sob o formato monogâmico-heterossexual. Mas naquela época, o que me tirou da situação foi uma básica e intuitiva noção de “isso não pode estar certo”. Somente no decorrer do tempo, foi que entendi o que é um relacionamento abusivo, como e porquê acontecem – histórica e socialmente falando. Sobretudo, em luta me reconheci como pessoa  e como mulher – indissociável.

Até que a questão bateu na porta novamente. Desta vez, para além de saber identificar as atitudes, existia o conhecimento sobre o machismo e suas ramificações, e toda uma trajetória que eu havia construído à respeito de mim mesma. E ainda assim aconteceu. E ainda assim, eu me mantive ali.

O ponto mais indigesto, que tornou-se um processo, foi admitir, questionar e procurar respostas para: por que eu permaneci ali, mesmo tendo tanta clareza sobre a situação? Por que tantas mulheres permanecem? Por que nós permanecemos?

Para isso, precisamos falar sobre socialização de gênero. Desde cedo, nós, mulheres, somos inseridas na sociedade como mero objeto de desejo e adestradas à priorizar, a todo custo, o olhar do outro. Isto posto, para sermos é necessário que alguém nos valide. Nos termos patriarcais, assim é construída a identidade feminina: se somos, é porque um homem nos legitimou a sermos.

Tal imposição nos condiciona à sucessiva busca pelo reconhecimento através do outro. Logo, o objetivo das nossas é encontrar a pessoa que nos torne uma pessoa. Quando somada a relação afetiva, gera-se ainda a dependência emocional. Entre múltiplos contextos e particularidades, isso nos é comum: o compreensível medo da rejeição e a reconhecível dificuldade em romper laços.  Assim nos submetemos e negamos, naturalizando o relacionamento abusivo. Permanecemos.

Entre amarras, um dos possíveis e eficaz caminho para a liberdade feminina é o debate, a voz e a expressão. Então, se cabe o testemunho: é essencial entender-se tanto como coletivo, quanto como indivíduo. Ressignificar a si mesma, interna e externamente, é aprendizado, luta e resistência diária.  

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