desfile mangueira 2019
Cotidiano

MANGUEIRA CAMPEÃ! “O sangue retinto por trás do herói emoldurado” A resistência que não é retratada nos livros marcou presença no desfile da Mangueira, na madrugada da última terça-feira (5)

6 de março de 2019

Foto: Reprodução/TV Globo

Por Giovana Gomes

A partir do enredo “História pra ninar gente grande”, do carnavalesco Leandro Vieira, a Estação Primeira de Mangueira deu uma verdadeira aula ao destacar os indígenas, negros e pobres dentro da formação histórica brasileira. O desfile, que garantiu à escola o título de campeã do Carnaval do Rio de Janeiro, 2019, ocupou-se de resgatar acontecimentos e personagens que são colocados de lado quando a história é contada pela perspectiva de homens brancos de origem europeia – uma narrativa ainda muito enraizada no imaginário da população brasileira.

Desmascarados

A comissão de frente trouxe, a princípio, a visão emoldurada daqueles que são vistos como heróis: a Princesa Isabel, o bandeirante Domingos Jorge Velho, o Marechal Deodoro da Fonseca, o Dom Pedro I e Pedro Álvares Cabral. Em sequência, são representados como anões, diminuídos e desmascarados ao lado dos indígenas e negros, para demonstrar, afinal, quem são os heróis de fato. Em seguida, Cacá Nascimento, cantora mirim, ergueu uma faixa com a escrita ‘Presente’, em referência ao assassinato da vereadora Marielle Franco.

Diversas alas foram compostas pela questão dos povos indígenas, muitos deles vítimas de genocídio – extermínio motivado por diferenças étnicas, raciais, religiosas – ao longo da trajetória brasileira. Inclusive, Duque de Caxias, que nos ensinam a venerar e a entender como “pacificador”, foi um dos destacados como maiores genocidas durante o Império do Brasil pelo desfile da escola.

desfile mangueira 2019
No carro alegórico “O sangue retinto por trás do herói emoldurado”, uma versão do Monumento às Bandeiras com caveiras manchadas de sangue representam a morte e o extermínio

Grandes nomes brasileiros

Uma das alas mostrou Cunhambebe, chefe indígena que liderou índios tamoios contra colonizadores portugueses no século XVI; em outra, os índios Cariris e sua luta contra a invasão holandesa no Nordeste em 1624. Além disso, também foram homenageadas Dandara dos Palmares, guerreira negra do período colonial; seu marido, Zumbi dos Palmares, líder quilombola brasileiro; a avó do Zumbi, Aqualtune; Luiza Mahin, presente na articulação de todas as revoltas e levantes de escravos da então Província da Bahia nas primeiras décadas do século XIX; Sepé Tiaraju, chefe indígena que liderou a Guerra Guaranítica, rebelião em reação à assinatura do Tratado de Madri; e Chico da Matilde, líder jangadeiro, com participação ativa no Movimento Abolicionista no Ceará.

Ao final do desfile, houve mais homenagens a Marielle Franco, citada pelo samba-enredo no trecho “Salve os caboclos de julho / Quem foi de aço nos anos de chumbo / Brasil, chegou a vez / De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”, quando bandeiras com seu rosto, (e o de outros nomes importantes como Cartola, Mussum e Grande Otelo) nas cores verde e rosa, foram levantadas. A viúva da parlamentar, Mônica Benício, foi à frente da última ala, como forma de ato político, em busca de justiça pela sua mulher, executada a tiros no dia 14 de março de 2018.

É possível perceber a manifestação de uma camada forte de sentimentos e senso crítico em cada ala, carro alegórico, fantasia e melodia da bateria. A composição, os olhares, a harmonia… tudo soou como um grande abraço coletivo e um grito de que a luta sempre existiu e sempre vai existir, enquanto não garantirem os direitos da população que é responsável pela construção do nosso país – no passado, presente e futuro.

O povo brasileiro precisa saber que seu país teve o território invadido, e, não, descoberto, e qual o impacto dessa construção em nossa sociedade atual – como por exemplo a continuidade do racismo estrutural, desigualdade social, desprezo com as classes trabalhistas e as ferramentas de manutenção do poder.

Após o desfile da Mangueira, uma coisa é certa: o protesto e a contestação continuarão, nas mais diversas esferas. O fetichismo com o Brasil escravocrata e a ilusão em relação à dominação colonial não podem mais ser tolerados. É preciso um basta no apagamento do processo histórico repleto de violências e opressões.

#MariellePresente

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