Cotidiano

“Ciranda de Pedra” e a noção de pertencimento Primeiro romance de Lygia Fagundes Telles tem uma atmosfera envolvente e nos faz pensar sobre nossa identidade

30 de abril de 2019

Por Giovana Gomes

Primeira escritora mulher a ser indicada para um prêmio Nobel de Literatura — algo a se fazer pensar, afinal, existem muitas outras escritoras merecedoras do prêmio também — Lygia Fagundes Telles completou seus 96 anos no último dia 19 de abril, tendo um interesse pela escrita e um poder de expressão muito forte desde bem nova.

Amiga de figuras como Carlos Drummond de Andrade e Érico Veríssimo, Lygia já era importante no ambiente literário com a produção de contos antes da publicação de sua primeira prosa, “Ciranda de Pedra”, que se dá no ano de 1954. Livro este que marca seu amadurecimento como escritora, também foi meu primeiro contato com a autora e me trouxe uma identificação dolorosa que eu não sabia que estava precisando até começar a ler. E como a própria Lygia disse uma vez: “Já que é preciso aceitar a vida, que seja então corajosamente.”

ciranda de pedra
Versão do livro “A Ciranda de Pedra” da editora Rocco

Durante a infância

O livro traz uma espécie de fluxo de consciência de Virginia, a protagonista da história, caçula de uma família classe média alta paulistana. Na primeira parte da história, ela vive em um contexto de pais separados e por um tempo mora com sua mãe, Laura, que vive com um médico conhecido por Virginia como tio Daniel. É importante dizer que Laura passa por problemas psicológicos, com pouquíssimos momentos de lucidez dentro da trama, em uma época em que havia ainda muitos estigmas e tabus em relação quem sofria desses transtornos.

Suas irmãs mais velhas, Otávia (muito vaidosa e avoada) e Bruna (com tendência ao fervor religioso), moram com o pai das três irmãs, em um ambiente um pouco hostil, mas que Virginia desejava fazer parte. E é nesse ponto que eu queria chegar: quais os anseios dessa personagem? Ela quer pertencer, fazer parte da roda, da ciranda de pedra – metáfora para os cinco anões de pedra presentes em volta de um chafariz, no grande jardim na casa do seu pai, como se estivessem dançando uma ciranda.

Cada anão representaria um personagem do grupo de amigos mais velhos que ela, formado pelas duas irmãs e por Afonso, Letícia e Conrado (o qual Virgínia carrega um amor platônico). Eles não permitiam que ela adentrasse de fato no meio deles, em diversos momentos ela se sente rejeitada, até mesmo pelo próprio pai, e se vê obrigada a enfrentar conflitos e complexidades da condição humana, mesmo ainda tendo dez anos e um olhar infantil e cheio de imaginação para com a vida.

Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês, dizia que a identidade vem do desejo de segurança e é fluida – no sentido de ser liquefeita –, pois pode mudar de forma com a menor das forças:  “Posto isto, esses estados são mutáveis e dependem de como as ações do grupo ou indivíduo são vistas: pertencimento e identidade não têm a solidez de uma rocha, não são garantidos para toda vida, são constantemente negociados e revogados.”

Portanto, Virginia passa a lidar com a ausência de maneira que ela ainda tivesse sua existência afirmada ali naquele momento: tentando se encaixar desesperadamente. Ao ver o outro como sendo componente de si, ela quer ser enxergada como um elemento de ligação e estabilidade dentro das relações. Isso me fez refletir sobre o esforço que a gente faz, a energia que a gente usa tudo que a gente consegue e não consegue  para entrar num grupo. Quando no final, o que importa é ficar perto de pessoas que nos reconheça e que não piore nossos medos.

“Começa hoje mesmo a vida que te resta”

Essa frase é da segunda parte do livro, quando Virginia volta do internato como professora de letras, tendo aprendido várias línguas. Estando no início da vida adulta, se encontra mais amargurada e desesperançosa. Voltando a estar no meio dos cinco amigos, percebe que cada um deles encara uma série de dilemas morais, e há uma mistura de interesses e pontos de vista. Ao tentar encontrar um novo significado para sua vida e se libertar de seus traumas, ela vai despindo as máscaras das figuras dessa ciranda e para de desejar fazer parte daquele ambiente, buscando caminhar com as próprias pernas.

Nesse sentido, vemos então a relação entro o real e a aparência do real, onde num momento de maior acolhimento de Virginia com ela mesma, desviando de manobras sentimentais e se permitindo um crescimento profundo, ela passa a entender sobre aquilo que nós esperamos das pessoas, sem de fato nos conectarmos com quem elas são. E para de ter a si como inimiga, pois através das compreensões e descobertas, vai notando que precisa contar consigo mesma e constrói os pilares da confiança própria. E esse pra mim é um dos muitos ensinamentos desse livro: temos que ter coragem de nos afastar do mundo que passamos muito tempo da nossa vida achando que é o melhor pra gente e mergulhar no nosso movimento interior.

“Via agora que jamais poderia se libertar das suas antigas faces. Impossível negá-las, porque tinha qualquer coisa de comum que permanecia no fundo de cada uma delas. Qualquer coisa que era como uma misteriosa unidade, ligando umas as outras, sucessivamente, até chegar a face atual. Mil vezes já tentara romper o fio, mas embora os elos fossem diferentes, havia neles uma relação indestrutível.” Ciranda de Pedra (1954).

 

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