Cotidiano

Relato sobre meu transtorno de ansiedade

30 de abril de 2019

Foto: Katai                                                                                                       

Por Gabrielli Silva 

Fase Sombria

A gente cresce ouvindo que precisamos cuidar da saúde do nosso corpo, mas ninguém fala da nossa saúde mental, que é tão – ou até mesmo mais – importante quanto a saúde do corpo. Crescemos negligenciando nosso psicológico e um dia ele cobra, foi o que aconteceu comigo e eu me vi na pior fase da minha vida. Não sei ao certo qual o termo médico para essa fase, mas eu a chamo de fase sombria.

Há dois anos eu vivia a pior fase da minha vida. Eu odiava com todas as minhas forças o reflexo que via no espelho, não conseguia ver uma única qualidade em mim, eu nunca fui tão má com alguém quanto eu era comigo. E absolutamente nada me fazia feliz, os momentos bons eram raros. Eu não me reconhecia mais, eram tempos sombrios, como se uma imensa tempestade estivesse dentro de mim e o seu fim nunca chegava. Era como se eu estivesse sempre rodeada de Dementadores – fãs de Harry Potter vão entender. Eu não sentia prazer em nada e, na maioria das vezes que eu sentia alguma coisa era tristeza.

Eu odiava minha faculdade e a vida que eu levava. Eu só queria desistir de tudo e voltar pra casa dos meus pais, na verdade, mais especificamente, pro meu quarto na casa dos meus pais. Cada vez que eu ia visitar minha família, o final de semana acabava e eu precisava voltar pra Bauru, era uma tortura.

Minha esperança estava nas festas de fim de ano. Sempre gostei muito do Natal e do Ano Novo, até mais que meu próprio aniversário e olha que eu amo aniversários, então eu esperava que essas festas me trouxessem de volta. O final do ano chegou, as festas passaram e todo aquele sentimento ruim continuou aqui. Eu não estava bem, hoje isso é claro pra mim, mas naquela época não era assim.

Negação

Eu tinha uma vida boa, estava vivendo meu sonho da faculdade sem grandes problemas, não tinha muito o que reclamar, então não poderia sentir nada além de gratidão e alegria – pelo menos era o que eu acreditava na época. A gente cresce aprendendo que devemos evitar todo sentimento ruim, sem questionar, simplesmente não podemos sentir.

Eu não me achava digna de sentir tristeza, muito menos de compartilhar tudo o que eu estava sentindo com outras pessoas, tinha tanta gente com problemas piores. Minha cabeça me dizia que eu precisava lidar com tudo sozinha, era um problema só meu. Minha cabeça me dizia tantas coisas ruins e eu, inocente, acreditava. Me lembro de ter momentos em que eu estava na casa dos meus pais e não saía do quarto, porque olhar para eles me fazia cair no choro. As crises de choro eram constantes também, aconteceram mais vezes do que posso contar, mas nunca com ninguém por perto, eu não podia dividir isso com ninguém.

Terapia

Poucas pessoas sabem sobre essa época da minha vida, pra falar a verdade, acho que ninguém, além da minha terapeuta, tem noção do que eu passei, talvez nem eu mesma. Sei que cheguei no meu limite, talvez até tenha passado dele e resolvi procurar ajuda. Com o tempo e, principalmente, com as sessões de terapia fui aprendendo que meus problemas, por menores que parecessem, importavam. Aprendi e venho aprendendo que não preciso ser forte sempre e nem aguentar todo o mundo nas minhas costas. A fase sombria foi passando e o sol surgiu novamente.

Mas os dias ruins ainda existiam e cada vez que eles apareciam eu sentia medo, medo de que todos aqueles sentimentos ruins voltassem e não fossem embora nunca mais. Mas então, o dia ruim acabava e um novo dia, melhor que o anterior, surgia. E assim tem sido desde então.

arte por Sreejith P A

Desde minha fase sombria já passei por muita coisa, por dores que nunca imaginei sentir, dores que ainda não se foram, mas hoje os dias bons são maioria. Eu ainda tenho dias ruins, dias que nada faz sentido e tudo o que eu desejo é parar de sentir, mas não estou mais só. Tenho aprendido, um pouco a cada dia, a dividir meus problemas e não carregar todo o peso sozinha. Minha cabeça sempre foi – e ainda é – minha pior inimiga, mas demorei muito tempo para entender isso. E entender não quer dizer que ela não me prega mais peças, mas sim que estou aprendendo a lidar com a voz que sempre aparece pra me dizer coisas ruins.

Minha cabeça ainda me diz coisas horríveis, tem dias que ela ainda tenta me convencer que eu devo me odiar, que não há nada de bom dentro de mim, que não mereço as coisas boas que acontecem comigo, que não mereço o amor. E quando minha vida está muito boa ela também tenta me convencer que algo ruim vai acontecer. Às vezes minha cabeça me diz coisas tão horríveis que nem consigo pronunciar. Eu choro, eu luto e tento me convencer do contrário, mas nem sempre tenho forças pra isso, então só me permito sentir e esses são os dias ruins.

Descoberta do transtorno

Sempre fui ansiosa e, apesar de passar por alguns tratamentos, nunca levei isso realmente a sério, eu considerava que era algo normal. Eu pensava: “sempre fui assim, não sei ser diferente”, só hoje eu vejo o quanto esses pensamentos eram problemáticos. Só depois de quase um ano e meio de terapia é que procurei um psiquiatra, foi então que descobri que os meus dias ruins eram crises de ansiedade e que minha ansiedade não era normal, minha ansiedade era um transtorno e eu não tinha que conviver com isso.

Eu faço tratamento para o transtorno de ansiedade com remédio há quase 6 meses e isso é assustador. Primeiro, porque é difícil admitir que sua cabeça não “funciona” sozinha, por isso demorei tanto tempo para procurar ajuda. Segundo, porque eu tinha medo de depender de um remédio pra ficar bem e por isso eu ia vivendo mal. Depois, porque é assustador ver as mudanças, eu convivi com a ansiedade por tanto tempo que ela já parecia fazer parte de mim. Então, quando eu percebi que aquela voz ruim não era normal, não era minha, foi assustador, mas também reconfortante.

Processo diário

Eu ainda tenho crises de ansiedades e ela são horríveis, mas não são mais tão frequentes. Às vezes tenho gatilhos que desencadeiam as crises, como notícias ruins, problemas na faculdade ou na família. Quando as crises acontecem eu sinto meu peito apertar e falta de ar, como se alguém estivesse esmagando meu coração e meus pulmões com as mãos. Sinto vontade de chorar e parece que eu sinto toda a tristeza do mundo dentro de mim. Nesses momentos não há coisas boas, não há esperança, mas hoje eu sei que esses dias vão passar, então não tento mais fugir.

Hoje, eu vivo uma luta diária para silenciar aquela voz ruim e dar lugar pra minha verdadeira voz, aquela que eu calei por tanto tempo. Ainda é difícil admitir tudo isso a mim mesma e ainda mais difícil dividir isso com as pessoas, mas é um processo e eu estou aprendendo.

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