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Cotidiano

Sair da minha fortaleza, enquanto permaneço nela Pensando na forma como me relaciono e como abro espaço (ou não) para as pessoas estarem na minha vida

10 de abril de 2019

Por Giovana Gomes

“Fala um desejo!”

“Não sei.”

“Qualquer um.”

“Que as pessoas não vão embora”.

Nessa hora, pensei se a conjugação do verbo na frase estava correta. E se meu maior desejo era esse mesmo. Na verdade, eu gostaria de escrever um livro. E que tivessem pessoas para ler e para conversar sobre o que foi escrito. Nós costumamos ver as coisas através das relações afetivas que construímos, mesmo sem perceber. A cidade, o passado, as músicas, nossa própria identidade. Ainda que eu passe muito tempo comigo mesma, eu também gosto de estar voltada para as conexões criadas com as pessoas que vivem ao meu redor.

Ele também gritava meu nome compulsivamente e perguntara se eu gostava de mar bravo ou mar calmo. Eu respondi mar calmo. Mas ele disse que ninguém gosta de mar calmo. Uns dias antes, tive um sonho em que via o mar de cima de um prédio, uma torre, não sei. As ondas ficavam cada vez maiores e mais próximas, e eu entrava em desespero pois precisava descer pelo elevador, colocar umas pedras para segurar essas ondas e não permitir que elas engolissem as pessoas que estavam por ali.

Cheguei a conclusão de que não se tratava de um prédio então, e sim da minha fortaleza, feita da minha própria substância. Em outras palavras, toda a minha áurea protetora, que supostamente me defendia dos baques da vida. Mas que apesar do conforto e da segurança, me sufocava, pois sentia que eu deveria era estar mesmo junto daqueles à minha volta, compartilhando instantes, os ajudando e repartindo fragilidades.

Minha psicóloga me perguntou uma vez se eu sabia qual a origem dessa minha fortaleza e como ela se manteve durante todos esses anos. Gostaria de saber a resposta. Parece que desde as perdas que passei na minha infância e adolescência, eu firmei um compromisso comigo mesma de não abrir muita brecha para os outros permanecerem por muito tempo. Afinal, tinha entendido que era sempre temporário.

Mas a vida é temporária. É passageira. A vida não tem a sua própria fortaleza. Ela está em todos os lugares. Então esse meu entendimento passou a não fazer mais sentido. Eu passei a querer estar mais disponível para os outros, para os encontros. Permitir que se envolvessem comigo. Muito mais do que minha solidão, edificar intimidades, sem tanto medo. Ser mais flexível, dividir o peso, viver histórias para poder contar depois.

E aí cheguei nesse dia em que disse que meu desejo era que as pessoas não me deixassem. Mas, sabe, às vezes elas vão embora sim. E esse não é o maior dos problemas, a gente aprende a lidar com isso. O embaraço vêm quando nossa tão procurada autonomia passa a nos paralisar. E isso eu não desejo mais pra mim. Quero seguir meu caminho reconhecendo minhas potências enquanto dou abraços calorosos. Criar laços enquanto cuido da minha autossuficiência e liberdade. Colocar minha alma próxima a outras almas, enquanto sigo com o máximo de confiança que posso ter. Sair da minha fortaleza, enquanto permaneço nela.

Quem sabe um livro saia disso tudo.

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