Acordes | Blog

Conheça “Matriz”: o encontro das raízes de Pitty

6 de maio de 2019

A cantora baiana lançou seu quinto álbum de estúdio no último dia 26 de abril, que agradou boa parte da crítica. A boa notícia é que Pitty apresentou um trabalho maduro, consistente e cheio de essência. Para os fãs de longa data que consideravam a possibilidade de uma atmosfera rock ‘n’ roll que remetesse aos seus primeiros trabalhos – Admirável Chip Novo e Anacrônico -, Matriz pode ter sido uma surpresa. Mas, aqueles que admiram e acompanham o trabalho mais recente da musa do Rock, percebem que ela segue uma ascensão linear e coerente com sua mudança de estilo dos últimos anos.

Sim, Pitty parece ter deixado o hard rock e as letras melancólicas pra trás. Mas, isso não significa que tenha deixado de ser a musa do rock. Desde SETEVIDAS (2014), a baiana já havia deixado claro que seguiu em frente em alguns aspectos.

Matriz aborda questões culturais e sociais de maneira consistente, deixando exposta sua posição acerca das temáticas nordestinas e libertárias. Contudo, também sentimos uma grande carga emotiva no álbum. Em entrevista ao UOL, Pitty afirma que não foi intencional, simplesmente saiu assim. Ela também diz que sua origem nordestina “nunca foi tão importante, até que se tornou”. O processo de produção do álbum durou mais de um ano e é, para a cantora, uma “investigação do passado”, mas com o olhar voltado para o agora.

De Bicho Solto a Sol Quadrado

Pitty se impõe com versos afiados, característica marcante de toda a carreira da baiana. Além disso, esse álbum traz influências fortes do reggae e do ska.

As primeiras músicas do álbum, Bicho Solto, Noite Inteira e Ninguém é de Ninguém, são as que mais possuem a pegada rock ‘n’ roll, conduzindo o disco para a parte mais dançante gradativamente.

As letras trazem reflexões e metáforas acerca da vivência feminina, principalmente a resistência e a liberdade da mulher. Pitty, nos últimos anos, tem sido uma referência de ativista feminista. Esse é o terceiro ano consecutivo que Pitty se apresenta no palco principal do Festival João Rock como a única headliner mulher. No primeiro ano (2017), a baiana discursou sobre a necessidade de levar mulheres para se apresentarem em espaços como esses, sendo que a produção musical feminina ganhou mais espaço nos últimos anos, com artistas incríveis se destacando na mídia. No segundo ano, confirmada novamente como a única mulher do palco principal, Pitty levou Emmily Barreto e Tássia Reis como convidadas especiais do show, colocando em prática o que sugeriu aos produtores do festival, que decidiram ignorar pela terceira vez o chamado da cantora, que se apresenta em Junho como a única mulher novamente.

A 4ª faixa do álbum, Motor, é um cover de Teago Oliveira (vocalista da banda Maglore), que também é oriundo de Salvador, terra que Pitty exalta com primazia em Matriz.

Continuando as homenagens a sua terra natal, Pitty se juntou ao BaianaSystem para lançar Roda, a sexta faixa do álbum. Roda mistura o ritmo peculiar da banda convidada, o Ska (batidas oriundas da Jamaica que utiliza instrumentos africanos), e solos de guitarra que puxam a música para o pop rock. Dançante e divertida, mas com a temática de alerta sobre a importância da cultura nordestina e a necessidade de maior visibilidade e destaque.

“Eu preciso falar dessa nossa verdade que vem do Nordeste” – Roda (Pitty e BaianaSystem)

Outra particularidade de Matriz são as faixas 5 e 7, vinhetas de poucos segundos que marcam as principais viradas de estilo. Após a segunda vinha, Azul, começa Bahia Blues, na qual Pitty expressa sua vontade de voltar pra Bahia, uma das músicas mais emocionantes do álbum. O estilo que predomina à partir daí é o reggae, sempre arranjado com o ritmo de rock característico da artista.

A última faixa, Sol Quadrado, é um feat com a artista Larissa Luz, outra conterrânea de Pitty. A música fecha o trabalho com grande estilo e emoção:

Eles me disseram pra eu desistir
Depois me falaram pra eu concordar
Eles me roubaram o direito
De decidir o meu destino
Levaram embora a minha liberdade

Que crime foi esse que eu cometi?

E, no refrão, conclui:
E decidi
Tá na hora, tá na hora de questionar
Não vou fugir
Mas da minha essência, não vou me afastar

Não que Matriz seja à prova de críticas. As faixas que antecedem Sol Quadrado são melódicas e românticas, apresentando uma parte mais pop e clichê, que cansam e são passíveis de apertar o play para a próxima música. Mas, no contexto geral, Pitty apresenta mais um trabalho consistente e rico em questões atuais e pertinentes.

Leia mais:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *