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Cotidiano

Gravidez na universidade: um mesmo começo para diferentes fins

12 de maio de 2019

Por Carol Oréfice                   

Ilustração: Maggie Cole Draws

Uma das principais questões que permeiam a cabeça de alunas do curso superior quando descobrem que estão grávidas é a decisão de seguir a faculdade ou trancar a matrícula. Essa decisão acaba influenciando não só o futuro das mães estudantes, mas também toda a gestação da criança e o pós-parto.

A escolha em manter-se ou não na graduação deve levar em conta mais de um aspecto. Dentre eles, encontram-se os custos que surgirão para manter a criança, se a mulher será mãe solo ou contará com o suporte do pai da criança e, principalmente, a estabilidade emocional. Além disso, é preciso considerar a mobilidade dessa gestante, levando em consideração que as maneiras de se locomover tornam-se mais complicadas ao longo da gestação, principalmente se a universidade for longe de casa.

É necessário que as gestantes também saibam que existem decretos para apoiar toda a gestação sem que haja o abandono dos estudos, como é o caso do decreto 6202/75, o qual garante a licença da faculdade por três meses a partir do oitavo mês de gestação. Esse decreto permite que a estudante possa fazer provas, trabalhos e outras atividades que valham nota quando retornar às atividades acadêmicas.

A saudade inesperada de uma criança indesejada

Foi em 2017 que a vida de Dandara Adrien Aveiro passou por uma reviravolta. Nascida em 5 de setembro de 1991, a aspirante a jornalista nunca idealizou ser mãe. Mas, devido a imprevistos da vida, ela acabou engravidando e passou por um dos maiores dilemas de sua vida.

Para ser mais exata, foi em agosto de 2017 que tudo mudou. Dandara, até então, não fazia ideia do que iria passar. Mantendo sua rotina comum, o atraso de sete meses na menstruação não causava grandes preocupações. Afinal, nenhum sinal de gravidez havia surgido e ela havia descoberto um caso de ovário policístico, o que também contribui para que a menstruação atrase.

Mesmo assim, Dandara decidiu fazer o BetaHCG, exame de gravidez, para que não restassem dúvidas. O resultado chegou, as mãos tremiam um pouco e o coração estava acelerado. Ao abrir o papel, o choque: POSITIVO. As lágrimas caíam na velocidade de uma enxurrada.

A decisão mais sensata na hora foi fazer outros dois testes, agora um de farmácia e um de sangue. Não era possível que Dandara estivesse grávida. Mais uma vez, mais um desespero. Ambos deram positivo. A vontade de desaparecer do mundo parecia cada vez mais razoável.

O sonho de ser jornalista estava despedaçando aos poucos e, tudo por culpa de uma criança que nunca fora desejada. A decisão de fazer um aborto era real. Todos os dias, em sua cabeça, passava como ela nunca se imaginara como mãe. O que ela então faria?

Os problemas de realizar um aborto clandestino eram muitos. Que segurança ela teria ao realizar um aborto clandestino? E se ela morresse? E se a criança nascesse com problemas? E se ela passasse mal ao ponto de precisar de um hospital e suspeitassem que tentou um aborto? Essas questões geraram um medo que fez com que Dandara prosseguisse com a gravidez.

A luz no fim do túnel surgira. Os pais de Dandara dariam todo o suporte para que ela continuasse os estudos. Enquanto Dandara estivesse em Bauru estudando, eles ficariam em Uberaba cuidando da criança. No entanto, a ideia de ter um filho não estava amadurecida na cabeça de Dandara.

Mesmo com todo o apoio da família e dos amigos, ela ainda se sentia sozinha. A tristeza de viver algo que nunca quis fazia com que seu psicológico ficasse cada vez pior. Não importava, para ela, se ela tivesse 26 anos ou 14, o filho não seria sinônimo de felicidade jamais.

Ainda por cima, a dificuldade de ser mãe solo a atormentava. Não ter ajuda do pai da criança fazia com que suas responsabilidades e medos crescessem conforme prosseguia com a gravidez. A gestação ficava cada vez mais difícil. Não podendo recorrer ao álcool, seu refúgio emocional preferido, o que era para ser uma felicidade tornava-se, em sua cabeça, um tormento.

O amargo que a mulher levava para vida era só um dos sentimentos causados pela rejeição do filho. A felicidade parecia impossível para a estudante de jornalismo. Mesmo com todas as tentativas de aproximar-se da ideia de ser mãe – chá revelação, a compra dos enxovais, a montagem de o quarto da criança na casa da mãe de Dandara – nada parecia o suficiente para fazer com que Dandara se apaixonasse pelo filho.

O dia do parto chegou. A princípio, tudo era muito angustiante. Não era fácil nem olhar para a criança. O pesadelo que Dandara não conseguiria mais acordar. Tudo estava acontecendo e era verdade. Depois de um turbilhão de sentimentos, tudo o que restou a ela foi um tempo para respirar. Ao se acalmar, ela tomou uma das decisões mais corajosas, a de olhar para a criança. E, assim que seus olhares se cruzaram, todo o amargo e tristeza de Dandara haviam passado, ela estava perdidamente apaixonada. A ideia de ser mãe não parecia mais ruim. O amor por seu filho era enorme.

Hoje, tudo mudou. O filho é a primeira coisa que pensa quando acorda e a última quando vai dormir. Ser mãe fez com que ela se empenhasse ainda mais em seus estudos para possibilitar um futuro melhor ao seu filho. As prioridades passaram por mudanças e, atualmente, não é algo que gere incômodo em Dandara. Pelo contrário, essa experiência que, no começo fora sufocante, serviu de amadurecimento para ela em sua vida.

A saudade é como um nó que aperta cada vez mais o coração. As lágrimas descem por sua face como uma garoa ao lembrar que a distância a impede de acompanhar os primeiros meses e anos de seu filho. A chama de vídeo para que o filho não se esqueça da voz e desacostume de Dandara não causa o mesmo calor na alma do que aquele abraço apertado e beijo demorado na testa da criança.

A jornada tripla para manter uma criança

A ficha demorou um pouco para cair, a surpresa fora maior do que qualquer outro sentimento. Raíssa Pansieri nasceu dia 3 de setembro de 1996 e foi em 9 de fevereiro de 2017 que descobriu estar grávida da Marina.            Durante a gravidez, a ideia de abortar surgiu como uma opção rápida para um problema que, até então, não parecia ter uma solução. Foi assim que, pesquisando sobre os impactos de interromper uma gestação e conversando com uma de suas amigas, Raíssa enxergou alternativas após o nascimento e decidiu prosseguir com a gravidez.

Os pensamentos que passavam na cabeça dela enquanto grávida traziam uma dificuldade que não aconteceu. O medo de não conseguir manter a filha em boas condições aterrorizava sua cabeça. Ainda por cima, Raíssa não conseguia nem cogitar largar os estudos.

Essas questões ainda cercavam a vida da estudante de jornalismo quando, às 2:30 do dia 7 de outubro de 2017, Marina nasceu. A felicidade era tanta que, por um momento, os contratempos foram deixados de lado. Foi naquele pacotinho de gente de 3,2 quilos e 49,5 centímetros que a mãe de primeira viagem redescobriu suas prioridades e amores.

A onda de vitórias não havia acabado, um mês após o nascimento de Marina, Raíssa conseguiu um emprego. Uma de suas maiores aflições, a de não conseguir manter ela e a filha financeiramente, havia desaparecido de primeiro plano. Em compensação, um novo obstáculo surge, a jornada tripla. Acordar, cuidar da Marina, se preparar para trabalhar, ficar o dia inteiro fora, voltar, se arrumar, preparar a Marina e ambas irem para a faculdade. Essa rotina diária foi árdua e obrigou que Raíssa aprendesse a administrar seu tempo para conciliar todos os compromissos sem deixar de lado sua filha.

Questões cotidianas como lavar a louça e cozinhar pareciam desafios gigantescos com uma criança ao lado. Como mãe solo, as complexidades estavam até em ter um tempo sozinha, que geralmente era no banho. Com o passar do tempo e com o crescimento da Marina, acabou que essa rotina saiu do âmbito da loucura e tornou-se simples.

Os impasses mudam conforme a idade da criança avança. O que para alguns universitários é algo rápido, para Raíssa fica complicado. Ir ao mercado com Marina é sempre uma aventura. A criança ainda é de colo, como Raíssa precisa fazer suas atividades diárias sozinha, o que torna complexo realizar cada ação com a Marina junto.

É claro que não foi só a vida pessoal da nova mamãe que mudou. A vida acadêmica de Raíssa precisou ser adaptada ao fato de ter uma nova companheira para tudo. A organização é o novo mantra de sua vida. Com uma jornada tripla, ela precisou realocar seu tempo para conseguir entregar todos os trabalhos e estudar para as provas.            Enquanto alguns de seus amigos estão preocupados em tirar uma nota maior que 7 nas provas da universidade, os olhos de Raíssa brilham ao ter tempo extra para se dedicar ainda mais na criação de sua filha, que é sua mais nova prioridade.

A cobrança vem de forma traiçoeira. Em alguns momentos, ela sente que poderia fazer mais pela filha e que, se não tivesse todos os compromissos de uma  vida adulta, conseguiria cuidar da filha em tempo integral. Da mesma forma, a estudante compreende que nem tudo está em seu alcance. Então, é muito mais importante aproveitar cada momento ao lado da Marina, desde os primeiros barulhos, a primeira parada sentada e até a primeira engatinhada.

No âmbito acadêmico não é muito fora desse padrão. A vontade de se dedicar mais e também aproveitar uma das melhores fases da sua vida causa um conflito interno em sua cabeça. Mas isso não é motivo para ficar cabisbaixa ou desistir do seu sonho de ter uma graduação.

As medidas a curto prazo não podem ser substituídas por um futuro brilhante. É assim que Raíssa procura manter seu foco em terminar o curso de Jornalismo. Mesmo com muitos conselhos de que o melhor seria se dedicar totalmente a filha, a estudante não se deixou levar e abrir mão dos seus planos. Ainda não é o fim do mundo.

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