potinho de vidro
Cotidiano

O potinho de vidro

28 de maio de 2019

Por Bruno Ferreira                                                                                                

O namorado se descolou com dificuldade do chão de vidro. O pescoço estava duro da noite mal dormida. Ele se sentou e assistiu o corpo adormecido de Amanda, seu peito subindo e descendo de acordo com sua respiração. Riscos de luz horizontais se projetavam pela persiana, avançando vagarosamente pelo quarto.

Quando o despertador tocou, Amanda se revirou no colchão à procura do celular. Desligou o barulho e passou mais uns minutos deslizando o dedo pela tela.

– Bom dia – disse o namorado, mas ela não ouviu. As palavras ficaram contidas nas paredes de vidro.

Ela finalmente se levantou e saiu do quarto. Deu para ouvir o ruído de urina, depois a descarga e por fim as mãos se lavando. Então ela voltou para o quarto e avistou o namorado em cima do criado-mudo, dentro do potinho de vidro. Ela parou e sorriu como se estivesse surpresa de vê-lo.

– Bom dia – disse o namorado.

– Quê? Ah, espera aí.

Amanda foi até o potinho de vidro e abriu a tampa.

– Bom dia – disse o namorado.

– Oi. Nossa, esqueci de você. Está com fome?

O namorado fez que sim. Amanda o pegou como um boneco e o levou até a cozinha, o pondo em cima da mesa. Ele assistiu Amanda deslizando o dedo pela tela de seu celular, usando a mão livre para devorar uma maçã e tomar um copo de leite achocolatado. Ela deu um naco da fruta e uma golada da bebida para o namorado. Quando terminou, Amanda se levantou e largou a louça na pia.

– Tenho que correr para o trabalho – ela disse. – Quer que eu te deixe vendo televisão? Ou posso te emprestar meu computador, se você quiser.

– Não precisa – respondeu o namorado. – Pode me deixar no pote.

– Tem certeza? Fico com dó de você, o dia inteiro lá dentro. Eu ia morrer de tédio.

O namorado deu de ombros.

– Eu gosto.

Amanda pegou o namorado e o levou até o quarto. Ela lhe deu um beijo que quase engoliu sua cabecinha, e então o vedou no potinho de vidro.

O namorado assistiu Amanda abrindo o guarda-roupa para trocar as roupas de dormir por uma calça jeans e uma camisa social. Depois ela correu pelos cômodos, fazendo as últimas preparações. Antes de ir ela gritou um tchau. A porta que dava para os elevadores se fechou, e o apartamento mergulhou no silêncio.

As paredes do quarto eram de um tom muito claro de amarelo. Como mobília só havia o criado-mudo, a cama e o armário. A única coisa de interessante que o namorado tinha para olhar era a janela. Dava para imaginar o formato das nuvens, pelo que aparecia delas nas frestas da persiana.

As nuvens já haviam se dissolvido na escuridão quando o namorado ouviu a porta da rua se abrindo. Ele se empertigou no potinho de vidro e esperou. Pela porta aberta, pôde vislumbrar Amanda se aproximando pelo corredor. Ela entrou no quarto e se jogou no colchão. Mexeu um pouco no celular e, depois de um tempo, se virou para o pote. Ela abriu a tampa com uma careta. O namorado estava todo torto, lambuzado pelas próprias fezes.

– Você cagou aí dentro? – inquiriu Amanda. – Toda hora!

– Desculpa. Eu não tenho mais onde fazer.

Ela suspirou. Pegou o potinho e o levou até a lavanderia. Deixou o namorado de lado enquanto lavou o pote no tanque. Ficou resmungando que ia ter que comprar um penico para ele. Usou um pano para secar o pote e pegou o namorado na mão.

– Você está muito assado?

– Bastante.

Amanda levou o namorado até o banheiro. Ela se despiu e entrou no chuveiro com o namorado em mãos. Esperou a água ficar morna e entrou de cabeça.

– Feche os olhos – ordenou Amanda.

Ela começou a ensaboar o corpo do namorado. Ele ficou escorregadio como uma barra de sabão, e quase escapuliu de suas mãos. Amanda o firmou no busto. Começou a enxaguá-lo com bastante cuidado. Ela sentiu um pequeno volume lhe espetando a pele.

– Você gosta disso?

O namorado fez que sim.

Sem avisar, Amanda começou a deslizar a língua por seu corpo. Um arrepio quente e áspero fez ele gemer de prazer. Ela continuou fazendo movimentos delicados, percorrendo seu corpo inteiro. Os dois usavam as mãos livres para se tocar. O namorado ejaculou e toda sua pequena energia se perdeu na ubiquidade da água, se esvaindo pelo ralo.

Amanda enxaguou o corpo inerte do namorado. Eles se secaram e foram para o colchão.

– Tem uma coisa que eu quero tentar – ela disse. – Você consegue deixar o corpo duro?

– Acho que sim.

Amanda enfiou a cabecinha do namorado na vagina úmida. Ele começou a se debater, e ela o removeu imediatamente.

– Cacete, não faz isso! – o namorado ralhou.

– Eu também quero me divertir – disse Amanda.

– Eu sei. Só avisa antes.

– Beleza. Eu vou enfiar agora, pode ser?

– Pode.

Ilustração: Bruno Ferreira

Amanda empurrou de novo o namorado para dentro. Dessa vez enfiou ele até a cintura. Ela ensaiou alguns movimentos, e foi imprimindo ritmo e velocidade. O namorado começou a perder o ar e deu tapinhas nas paredes da vagina. Amanda retirou o namorado ofegante. Deu um tempo para ele se recuperar e recomeçou as estocadas. Os movimentos ficavam cada vez mais violentos, e então ela se lembrava do namorado e lhe dava um tempo de ar puro. Quando ele perdia a respiração, começava a se debater, sua cabeça e membros se torcendo para todos os lados. Quando Amanda se aproximou do clímax, as paredes vaginais pulsaram, espremendo o corpo do namorado. Os movimentos de estocada ficaram mais rápidos e dolorosos, e por fim cessaram. Ele ficou ali dentro, socando as paredes, esperando que ela o notasse. Amanda por fim removeu o namorado, que caiu na cama respirando convulsivamente.  

– Nossa, foi incrível! – disse Amanda.

– É – disse o namorado, e pausou para inspirar. – Foi demais.

Amanda passou a brincar com seu namorado todos os dias. Ela chegava da faculdade e já se enfurnava no quarto, usando-o para se dar prazer. Nos fins de semana, eles praticamente não paravam. O namorado aprendeu a segurar a respiração por cada vez mais tempo, e aprendeu que, quanto mais cedo começava a se debater, mais rápido a brincadeira terminava. Amanda fez um pinico para ele, e o potinho não ficou mais tão imundo. Eles não tomaram mais banho juntos. Ela passou a lavá-lo na pia depois de usá-lo, e quando terminava, o guardava no pote e se voltava para outras coisas.

Um dia ela estava sentada na cama com o notebook no colo, digitando. Depois de assisti-la por alguns minutos, o namorado deu umas batidinhas no vidro, até ela notar. Ela abriu a tampa.

– Que foi? – Amanda perguntou. – Quer brincar?

– Não, só quero conversar.

– Sobre o quê?

– Não sei, só conversar.

– Agora estou ocupada – disse Amanda, se voltando para a tela.

– A gente nunca mais conversa – disse o namorado.

– A gente brinca o tempo todo.

– É, é só isso que a gente faz. E só quando você tem vontade. Estou meio cansado disso.

A namorada pôs o notebook de lado.

– Do quê?

– De ser usado que nem vibrador.

Pela cara da Amanda, o namorado percebeu que disse a coisa errada.

– Talvez seja melhor a gente não brincar então – ela disse, e fechou a tampa do potinho de vidro. As palavras do namorado foram abafadas pelo potinho. Amanda voltou a digitar, mas de vez em quando lançava um olhar furioso para o namorado. De repente ela se levantou, pondo o notebook de lado, e guardou o potinho em uma gaveta do criado-mudo, confinando o homenzinho à escuridão.

A próxima vez em que a gaveta se abriu foi no dia seguinte. Amanda estava com o rosto fechado. Afastou o potinho para pegar um caderno e fechou de novo a gaveta.

No dia seguinte, Amanda abriu de novo a gaveta com o rosto triste. Ela abriu o potinho e pegou o namorado. Ele estava pálido, com o cabelo oleoso.

– Perdão, perdão. Você está bem?

O namorado fez que sim.

– Eu me senti tão mal. Eu nem sei por que a gente brigou, foi uma coisa tão besta. Você me perdoa?

– Perdoo – ele disse, e abraçou a mão de Amanda. Ela lhe deu vários beijos. Ela lhe deu de comer e de beber, limpou o seu pote e tomaram banho juntos. Então sentaram na frente do notebook para ver um filme enquanto comiam pipoca. Amanda passou o filme inteiro acariciando a cabeça do namorado com o dedo. Então eles conversaram um pouco, se despiram e brincaram. Os dois gozaram, e então tomaram mais um banho. O namorado terminou a noite deitado do lado dela na cama, embolado nas cobertas. Ele nunca dormiu melhor.

Na manhã seguinte Amanda saiu para o trabalho, guardando o namorado de volta no pote. Tudo pareceu bem por um tempo, mas o namorado percebeu que Amanda continuava distante. Ela lhe dava comida de vez em quando, mas na maioria dos dias ela se esquecia, e só limpava o pote quando o cheiro se tornava insuportável. Ele tentava puxar assunto, mas Amanda não queria conversar. De vez em quando ela tirava o namorado do pote para brincar com ele. Era bom ser tocado e dar algum prazer para Amanda, embora o namorado não soubesse dizer se gostava daquilo ou não. Mas os lapsos de alimentação foram deixando seu corpo mirrado e quebradiço, e Amanda foi perdendo o interesse. A escuridão na gaveta foi se adensando mais e mais.

Uma vez Amanda abriu o potinho para alimentar o homenzinho e ele atacou sua mão, apertando e mordendo seu anelar. Amanda sacudiu a mão e o namorado saiu voando pelo quarto, aterrissando no chão. Sua perna se quebrou como um palito de dentes, e ele começou a chorar. Amanda usou as pontas dos dedos para pegar o homenzinho pelos cabelos, e o pôs de volta no pote. As paredes de vidro suprimiram suas lamúrias. Depois disso Amanda não abriu mais a gaveta.

potinho de vidro
Ilustração: Bruno Ferreira

A perna nunca deixou de doer, mas a dor era suportável se o homenzinho não tentasse se mexer. No começo era possível dizer as horas pelos ruídos que Amanda fazia lá fora, mas a certeza foi se dissolvendo na escuridão. O tempo deixou de ser dividido entre dia e noite para ser dividido entre quando Amanda estava e não estava em casa. A pele do homenzinho se moldava a seus ossos como uma manta fina. O mundo estava esmorecendo, até que o namorado ouviu no apartamento uma voz estranha.

Uma voz masculina conversava com a Amanda. Não dava para saber do que falavam, mas dava para discernir as risadas compulsórias e as vozes exaltadas. As vozes foram se aproximando cada vez mais do criado-mudo, dando lugar a gemidos abafados. Corpos começaram a rolar pela cama.

O homenzinho juntou seus últimos resquícios de força e gritou o mais alto que pôde, distribuindo chutes e socos para todos os lados, esfolando os punhos no vidro gélido.

– Que barulho é esse? – a voz masculina inquiriu.

– Não é nada – disse Amanda, e os beijos prosseguiram.

O namorado insistiu no estrebucho com vigor renovado.

– Mas que merda?

– Ei, espera!

A gaveta foi aberta, e um homem colossal, despido da cintura para cima, encarou a figura encolhida no pote de vidro. O homenzinho acenou e o gigante pegou o pote para abrir a tampa.

– Ele é de verdade? – o gigante perguntou para Amanda. – Que engraçadinho.

– É claro que eu sou de verdade – atalhou o homenzinho. – E aquela mulher que você estava beijando é a minha namorada. Faz o favor de me pôr no chão?

O gigante pôs o homenzinho no tampo do criado-mudo. Ele estava boquiaberto.

– Ele é só um brinquedo – disse Amanda. – Esquece ele.

– Eu não sou um brinquedo. Eu sou o seu namorado.

O homenzinho se voltou para o gigante.

– A gente brigou e ela está meio confusa agora, mas eu agradeceria se vocês não trepassem.

A mandíbula do gigante permanecia estupidamente caída.

– Foi mal, carinha – ele disse, finalmente. – Eu não sabia.

O gigante vestiu a camisa e deixou o quarto. Amanda foi atrás dele aos prantos, tentando lhe dissuadir de ir embora. Ela voltou alguns instantes depois e se sentou na beirada da cama, com o rosto enterrado nas mãos.

– Eu te perdoo – disse o homenzinho. – Eu sei que a gente está numa fase difícil, mas…

De súbito, Amanda se levantou e tomou o potinho nas mãos. Seu rosto estava deformado pela raiva.

– Viu o que você fez? – ela gritou, sacudindo violentamente o pote. O homenzinho se chocou contra as paredes de vidro, bosta e mijo voando para todo lado. – Por que você tem sempre que estragar tudo? Seu merda, seu filho da puta, imprestável.

Amanda abriu o guarda-roupa e arremessou o potinho na prateleira mais alta, onde ficavam todas as tralhas que ela não usava mais. O potinho quicou e se acomodou deitado entre uma caixa de fotografias e uma pilha de livros amarelados. Amanda fechou as portas do guarda-roupa. Agora tinha um risco de luz cortando verticalmente a escuridão. O homenzinho não teve coragem de se mexer. Se tentasse, era capaz que seu corpo inteiro se desfizesse. Ele podia ver o teto do quarto quando Amanda abria o guarda-roupa para pegar alguma coisa, mas não tinha ângulo para ver mais nada.

Semanas mais tarde, Amanda subiu em um banquinho e esticou o pescoço para ver a prateleira mais alta do guarda-roupa. O fedor vinha de um potinho de vidro, com um corpo indiscernível coberto de fungos repousando no fundo. Ela pegou o potinho com cautela, embrulhou numa folha de jornal e jogou no lixo.

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