quando ela se tirou para dançar
Cotidiano

Uma pulsão de vida

5 de junho de 2019

Por Giovana Gomes                                                                                           Foto: Noah Sulliman/Unsplash

A comodidade era o seu pior monstro. Diziam que estar ali, continuar no mesmo lugar, era uma escolha diária. Naquele momento ela não era capaz de escolher conscientemente, só desejava que o barulho do grilo apaixonado parasse, e que o carro estacionando lá fora sumisse, para que o silêncio a atingisse de uma vez por todas.

O remédio que tentaria lhe adiantar o sono havia acabado. A cabeça e o corpo ao redor do útero doíam.

Abstinência. Do que, já não entendia. Não era dela mesma, pois sentia sua presença como a noite sentia o próprio clima estranho. Era a falta do espreguiçar afetivo. A amargura da insistência. Como um remédio que não servia para o que desejava e que não devia estar sendo lançado pela garganta. O ir contra si própria, quando não se é mais necessário. 

Deitada sob o lençol amarelado com pequenos furos, soube do que se tratava então. Não teria um aviso prévio. Seria no instante em que ela tomasse do caldo de que era feita. Resmungava em voz alta. Dois minutos antes, um amigo de quem estava com saudades mandara mensagens de voz. Uma doce alegria.

“Me conte novidades!”

E então veio as tentativas de resposta que demonstrassem aquilo que ela não tinha transformado em palavras ainda. Sutilezas. Coisas novas. Em que sentido? Ela não enxergava o novo, embora ele estivesse ali há um tempo.

“Venho dançando, mas sem constância. Ainda compro cigarros. Estou usando roupas de tons mais fortes, como o vermelho. Também acho que estou sendo mais gentil comigo mesma, mas não tenho certeza. Tudo soa como algo próximo ou distante demais. Uma pulsão de vida ou de morte agressiva.”

Essa era a resposta, mas enviou algo um pouco diferente. Lembrava que o meio existia – ou seja, algo que se localiza entre os extremos – mas não sabia lidar com ele, por mais que sempre tenha acreditado que a harmonia era o seu maior objetivo. Esse vício descomunal chamado de harmonia.

E sozinha, começou novamente a dançar sozinha no quarto abafado. Com uma música que possuía uma pausa brusca após 3 minutos e voltava de maneira mais intensa. Notou que estava se libertando da própria estagnação. Continuar em movimento nunca foi seu forte, mas dessa vez precisou deixar ir. O estar entre dois processos não era mais possível.

Depois do alívio, afobação. E agora, calma. Ou algo do tipo. Passava por uma maratona emocional e não saberia distinguir as formas diferentes de se reconhecer no fim. Havia saído do seu próprio organismo, que repetia um comportamento, ainda que não sendo mais forçado a isso. E olhando para aquilo que falta, se perdoou

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